terça-feira, 5 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 2] A árvore

Tem estado a chover desde que cheguei a Pinheiro, o que dificulta um pouco as minhas incursões pela aldeia. Ontem, antes de almoçar, ainda tentei sair de casa, a chuva nunca foi sinónimo de clausura para mim, mas fui empurrado por uma forte rajada de vento, mal cheguei ao quintal. O vento não precisa de muito esforço para me empurrar… Fechei o guarda-chuva e voltei para dentro. Depois de almoçar, vi pela janela que o vento acalmara e lá me aventurei pelas ruas vazias de Pinheiro. Estive fora de casa cerca de duas horas. Aproveitei para tirar fotografias a alguns lugares que visitara na minha infância e para visitar família. Ainda falei com duas mulheres que vivem perto da primeira casa onde os meus avós maternos viveram. E voltei para casa, não pudera ir muito além dos caminhos de alcatrão, que os de terra estavam encharcados e, por isso, muito instáveis. A chuva manteve-se durante a noite e entretanto as temperaturas desceram.

Hoje, quando acordei, ainda era noite fechada. Antes de sair da cama, pus-me a ouvir. Não chovia. Tomei o pequeno-almoço e abri as janelas, na expectativa de perceber se ainda havia nuvens. Mal o dia começou a raiar, percebi que sim, que havia nuvens, mas estavam mais dispersas do que ontem e Domingo, hoje dava para ver farrapos do azul do céu. Como sei ler os elementos da natureza, apressei-me, sabia que estavam reunidas as condições para que o dia de hoje tivesse períodos alternados de sol e de chuva. E de manhã ainda não chovera. Mudei de roupa, pus um cachecol ao pescoço e uma boina na cabeça, vesti um casaco quente, arrumei um pequeno guarda-chuva no bolso do casaco, não fosse chover pelo caminho, e calcei uns sapatos confortáveis para caminhar. Quando saí de casa, fazia sol.

Cheguei à estrada principal e tive de semicerrar os olhos, tal era a intensidade da luz reflectida no asfalto. Caminhava por uma estrada incandescente. Houve uma nuvem caridosa que deve ter-se compadecido de mim e pôs-se à frente do sol. Antes assim, desde que não chovesse. Subi a rua, com o bosque a aparecer do meu lado direito. Olhei para trás e consegui ver, ao longe, a Serra do Caramulo, ainda não a vira desde que chegara à aldeia. Continuei em frente, sempre a subir, e virei à direita, para seguir por uma estrada de terra batida, que percorrera apenas uma vez, quando criança.

Sabia muito bem qual era o meu objectivo, sabia-o desde que saíra de casa. Temia não reconhecer os caminhos de há tantos anos, mas decidi aventurar-me e confiar nos meus sentidos. E os elementos da natureza dão-nos sinais, indicam-nos o caminho. Quando cheguei a uma bifurcação, decidi afastar-me da estrada que seguia junto às casas. Entrei no caminho que seguia entre as árvores, para dentro do bosque.

Penso que os pássaros se admiraram com a minha presença. Não tanto por ser um humano, devem estar habituados à presença dos homens, mas mais por não esperarem ver por ali alguém tão cedo e com aquelas condições climatéricas. Caminhei a ouvi-los cantarolar, enquanto descia um caminho de terra e pedras, ladeado por carvalhos, pinheiros e tojos em flor. Entrava para o coração do bosque. Apercebi-me que, ao longe, grasnava um corvo. Sorri e continuei em frente. Os corvos são aves que me acompanham, é regular escutá-los, esteja onde estiver. Senti-me protegido. Foi então que o vi.

Parei a meio da estrada, olhando por entre os troncos das árvores, até onde a minha vista conseguia alcançar. Ao longe, impunham-se os contornos do maior tronco do bosque, que se erguia da terra como a mais firme coluna entre o reino vegetal. Percebi que a árvore que eu queria rever estava do outro lado, tinha-me enganado no caminho. Ou melhor, não tinha ido pelo caminho mais rápido e mais directo, o que é diferente de me ter enganado. Seguira, sim, pelo caminho mais bonito.

Decidi não voltar para trás. Se atravessasse o bosque até à outra estrada, que eu conseguia ver do sítio de onde estava, ficava logo pronto para descer até à árvore. Saí do caminho e pisei o solo coberto de folhas secas. Procurei seguir por chão firme, apoiando-me nas raízes, nas pedras e em algumas elevações de terreno, e saltando sobre os regatos que a chuva formara no bosque. Rapidamente cheguei à estrada que seguia junto das casas e logo me vi diante da enorme figura do Eucalipto Grande.

Só a vira uma vez, penso que antes de eu fazer dez anos, mas bastou esse dia para que a árvore povoasse o meu imaginário até hoje. Para abraçar o tronco, que parece ter sido esculpido da terra e alisado, como uma estátua, são precisos dez homens. Há apenas uma raiz saliente, muito grossa, que se eleva e volta a perfurar o solo. A parte virada a norte está coberta de musgo e no solo, em volta, vêem-se cascas do tronco, folhas secas e alguns ramos partidos.

O Eucalipto Grande é uma árvore anciã, a mais antiga do bosque. É a mais alta das árvores, repleta de ramificações e, seguramente, de memórias. Os homens de hoje não saberão contar a sua história. Mas respeitam-na. Sabem que olhar uma árvore assim é olhar algo do domínio sagrado, como se ela fosse detentora de uma força oculta e divina. Há, sem dúvida, uma força latente naquele lugar. E uma sedução. A árvore seduz-nos a parar, a sentarmo-nos junto dela, a abraçar-lhe o tronco. Mas também há ali um conforto, um sentimento de regresso à matriz, à origem. É uma árvore-deusa e uma árvore-mãe. Ela continua a resistir de pé e a ramificar, parece imune ao tempo. Nunca a velhice foi tão forte e tão sedutora. O tempo, para ela, é condição para viver e não para se aproximar mais da morte. Poder tocar uma árvore assim é o mesmo que tocar a promessa da imortalidade.

Que forças ocultas, essas, que elevam as árvores e fazem mirrar os homens?

Pinheiro (Carregal do Sal), 5 de Janeiro de 2016 – 19h50m

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