quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 20] O Covil das Cobras

Desde que aqui estou, há caminhos que não me canso de percorrer. Não só pela beleza natural que encerram, mas por tudo o que me transmitem. Ontem desci novamente a estrada que leva à ribeira, onde havia o moinho do meu bisavô, e hoje voltei a um lugar que chamam de Covil das Cobras.

Covil das Cobras porque, no Verão, diz-se que saem cobras e lagartos das ranhuras entre as pedras. A primeira vez que lá fui parar foi acidentalmente. Ia sozinho pelo campo, a caminhar, e de umas barracas junto à estrada saiu um cão grande, a ladrar. Tentei manter a calma, não parei de caminhar, e instintivamente afastei-me do caminho do cão, virando, sem saber, na direcção que dá para o Covil das Cobras. O cão ficou para trás, a ladrar, e eu, ao perceber onde chegara, maravilhei-me.

Em cada um dos lados do caminho há um muro feito de pedras. As pedras estão cobertas por musgo e entre as ranhuras espreitam as raízes das árvores. Carvalhos, na sua maioria, e alguns pinheiros mansos. Pelo chão, dispõe-se um tapete de folhas recortadas, cor de cobre. São as folhas dos carvalhos que ladeiam o caminho. Os ramos são tão altos que formam uma cúpula e ali só se ouve o vento a sussurrar. É o caminho para as eiras e para o bosque. Para mim, é a entrada para um reino mágico e imaterial.

Há quem procure paz dentro dos templos ou no silêncio do quarto. Há quem precise da imensidão do mar ou da aridez das montanhas. Poder estar entre as árvores, na floresta ou no bosque, é para mim como entrar num território sagrado, em que cada árvore, cada pedra e cada animal são obra de uma força antiga e inicial que nós, humanos, ainda esperamos compreender. Cada coisa está onde cada coisa deve estar, para que tudo se movimente em perfeição. Há uma ordem, ainda que não pareça. E há beleza, imensa beleza. Há, em cada recanto, um hino à prevalência da vida sobre a morte. Uma sinfonia. Uma assinatura.

Pinheiro (Carregal do Sal), 27 de Janeiro de 2016 – 17h36m

Sem comentários:

Enviar um comentário