quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 21] O Soito

Por trás da capela de Pinheiro, há um pequeno monte que chamam de Soito, por se encontrarem por lá muitos castanheiros. É um dos meus locais preferidos, aqui. Grande parte da minha família cultiva lá a terra, há hortas e árvores de fruto. Nesta altura do ano, as mimosas floridas dominam o monte, formando uma mancha amarela que se vê de quase todos os lugares da aldeia.

O Soito é, talvez, por onde caminhei mais vezes, quando vinha de visita à aldeia com os meus pais. Os terrenos estavam molhados, por norma, e a luz era parca, já que vínhamos à aldeia em Novembro, pelo Dia de Todos os Santos. Na primeira vez que lá fui, talvez com seis anos, ou até menos, era a minha mãe que me guiava pelos caminhos de terra, muitas vezes acompanhada pela minha avó e pela minha tia, que seguiam à frente e me avisavam para ter cuidado com os poços que se abrem nos terrenos, poços sem muros e que raramente têm uma cerca de canas como única protecção. A minha mãe levava-me a ver o ribeiro, onde molhava sempre as mãos, e continuávamos por entre hortas, carvalhos e árvores de fruto. Pelo caminho, lembrava-se de histórias e contava-me, seguindo pelo caminho ao lado das levadas. Passávamos por uma mina de água, um buraco escavado na rocha pelo homem, e a minha mãe dizia-me que se escondia ali, quando era criança. Depois olhávamos para as casas da aldeia a fumegar e voltávamos para casa.

Às vezes pergunto-me qual a razão de gostar tanto deste lugar e de o associar, sempre, às estações do ano em que a luz é breve, de que também gosto particularmente. Esquecia-me que era precisamente aqui e que era precisamente nessas estações em que treinava o exercício de olhar, caminhando atrás da minha mãe como que percorrendo um caminho iniciático para a luz. Para ver. Para ouvir. Traves-mestras do ofício da poesia.

Pinheiro (Carregal do Sal), 28 de Janeiro de 2016 – 17h37m

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