sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 22] O vergueiro

Estive na eira dos meus tios, a vê-los seleccionar as canas grandes das canas pequenas. Como estou sempre a fazer perguntas, pareço uma criança, perguntei-lhes o que iam fazer com as canas. Disseram-me que as usam na horta, para os feijões poderem trepar, ou nas videiras. Peguei numa cana mais fina e a minha tia contou-me que há quem as use para fazer cestas. Mostrei-me surpreso, não sabia. Foi então que me contou a história de Francisco, o vergueiro de Pinheiro.

Francisco chegou à aldeia vindo do Algarve, a pé, pelos anos 50/60, sensivelmente. No tempo em que vivemos hoje, em que temos mais de um carro por casa, acessibilidade ao metro, ao comboio ou ao avião, é incrível pensar que Portugal já foi um país em que as pessoas tinham de se deslocar a pé por não haver outros meios, em que se vivia com tantas limitações, mas que não eram impedimento de se fazer alguma coisa. Francisco caminhou país acima, sozinho, ora ficando quinze dias num lugar, ora oito dias noutro, até chegar a Pinheiro, onde se fixou. Era o único vergueiro da aldeia, fazia cestas de canas e de vimes, já que ambas as plantas abundam nos terrenos.

Embora tendo ficado por aqui, Francisco não estava sempre por Pinheiro. Ora ia uns dias para uma aldeia, ora para outra. Era um nómada, tinha espírito viajante. Por cá acabou por morrer. Ironia ou não, foi atropelado. Um homem que percorreu mais de metade do país a caminhar acabou por morrer atropelado. Vá-se lá compreender as vontades do destino.


Pinheiro (Carregal do Sal), 29 de Janeiro de 2016 – 20h03m

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