sábado, 30 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 23] As bôlas e as papas

Ao chegar ao café da minha prima, vi-a atarefada junto do forno a lenha. Percebi logo que estava a cozinhar alguma coisa. Não demorou muito para perceber que preparava bôlas. Ia fazer bôlas de bacalhau, de carne e de sardinha, com farinha de milho. Sentei-me para acompanhar todo o processo e logo começámos a conversar.

Quando se cozia a broa de milho, anos atrás, aproveitava-se uma parte da massa para fazer uma bôla. Podia-se fazer mais, dependeria da quantidade de massa e das pessoas em casa. Recheava-se a massa com o preparado, se fosse de carne ou de bacalhau, ou com as sardinhas, inteiras. Servia de petisco à refeição, para comer por cima da sopa, nas casas em que ter petiscos era coisa rara. A criatividade esteve sempre ao lado daqueles que tinham poucos recursos, que faziam muito com pouco.

Como falávamos das comidas que se serviam noutros tempos, nas casas mais pobres, inclusive na dos meus bisavós, a minha prima lembrou-se das papas. As papas eram um acompanhamento feito com farinha de milho e a água da cozedura das nabiças. Depois de cozidas, as nabiças eram postas de parte e adicionava-se farinha à água, até engrossar. Batia-se tudo com uma colher de pau, temperava-se e, no final, juntavam-se as nabiças. As papas devem estar muito próximas das migas alentejanas ou do mangusto, em Santarém. Se antes se faziam por haver necessidade de se aproveitar tudo o que houvesse para comer, hoje fazem-se pelo prazer de apreciar um bom prato. Curioso como as refeições dos pobres de antigamente se tornaram nas refeições dos restaurantes gourmet de hoje.

Pinheiro (Carregal do Sal), 30 de Janeiro de 2016 – 21h21





1 comentário:

  1. A saudade que me deu essas bôlas de sardinhas com farinha de milho que se faziam em casa do meu avô!
    Um grande beijo, Samuel.

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