quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 3] As águas limpam

A aldeia de Pinheiro é muito diferente da minha vila, Alcanhões. A começar pela geografia. Alcanhões começa onde termina a Lezíria. Os campos são abertos, povoados por oliveiras e vinhas. Há horizonte e longe. As casas são brancas e lisas, pintadas de cal. Prevalece a luz. Aqui, na aldeia, os campos estão fechados pelas copas das árvores da floresta. Pinheiros, na sua maioria. As casas são feitas de pedra, são escuras e ásperas. A Serra do Caramulo, ao longe, vigia-nos como sentinela e domina o horizonte. Prevalece a sombra. Das árvores, das casas, da serra. Mas numa coisa encontraram-se estes dois lugares, um no Ribatejo, outro na Beira Alta. Encontraram-se nas águas.

Tal como Alcanhões, Pinheiro é abundante em água. Há fontes, poços, rios, ribeiras e levadas. Cresci nas proximidades do Tejo e do Alviela, bebendo água das fontes e dos poços e brincando junto às ribeiras e regatos. Aqui, há o rio Dão e o Mondego, há as fontes da aldeia e as ribeiras que irrigam os terrenos. Lembro-me de a minha mãe contar que, quando era pequena e chovia, formavam-se regatos pelos campos, de onde se podia beber água com as mãos. Hoje, a água continua a correr. Mas a água que corre não é a mesma de outrora.

Soube que as águas de Pinheiro têm vindo a ser mutiladas pelas descargas poluentes das fábricas de produção de mármore e de queijo. Apodrecem os frutos nas árvores e as plantações dos agricultores, morrem animais envenenados e extinguiram-se os peixes e as enguias das ribeiras, que ali existiam desde sempre. No Verão, quando a poluição se faz notar mais, corre um cheiro nauseabundo pelo ar e as águas podres são propícias à formação de mosquitos. Os homens profanaram as águas de Pinheiro e lembram-me os mesmos homens que profanam o meu Tejo e o meu Alviela. Lembram-me os mesmos homens que profanam o Rio Lis e o Zêzere, o Nabão, o Almonda e o Ave. Esquecem-se, todos eles, que quem profana um elemento da natureza está a matar-se a si próprio.

A chuva continua a cair lá fora. Os terrenos estão alagados e a água corre pelas levadas. Surgem regatos no meio dos campos e as ribeiras transbordam. O Inverno é a estação da água. Pois que a água limpe a profanação dos homens. E que traga nova vida à água da aldeia.


Pinheiro (Carregal do Sal), 6 de Janeiro de 2016 – 20h08m

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