quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Diário de Bordo, Texto 4] O moinho

Era uma vez um moleiro e um moinho. O moinho era uma casa de pedra sem janelas. Fora erguido no cimo de um penedo, de onde se via o açude e o rio. A água corria pelas levadas, girando as mós que faziam a farinha. Moía-se milho, centeio e pimentos. O moleiro descia da aldeia até ao rio, para fazer a moagem, e servia-se de um burro para carregar os cereais, colina abaixo, colina acima. O moleiro era o meu bisavô. António, era o seu nome.

O moinho já não existe. O moleiro também não. Existe o penedo e as marcas que dão sinal da presença humana no terreno. E há a imaginação, que me faz adivinhar como seriam os penedos quando ainda havia moinhos de água e moleiros, quando aquelas eram terras do ofício das mós. De como seria a harmonia do som da água com o som da pedra contra a pedra. De como seria andar colina abaixo, colina acima, da aldeia para o moinho e do moinho para a aldeia, uma vida inteira.

Hoje, diante do mesmo penedo que o meu bisavô via do moinho, percebi que trago comigo um sentido universal que compreende a transformação das coisas e o lugar que ocupam. Não sou moleiro, mas sei que o milho, o centeio e o trigo se transformam em farinha e que a farinha serve para fazer o pão. Sei que a água que passa pelo açude irriga os terrenos mais à frente, onde se planta o milho, o centeio e os pimentos que, quando secos, servem para fazer colorau. Sei que as mós, quando estão gastas, precisam de alguém que as pique. As coisas transformam-se porque estão vivas. E a transformação obedece aos ritmos selados pela natureza. Talvez por isso nunca ninguém tenha conseguido transformar pedras em ouro, não há nisso qualquer alinhamento com a ancestralidade dos pactos.

Afinal, não sou assim tão diferente do meu bisavô António, que sabia que o moinho era o seu laboratório de alquimia. Nunca transformou pedras em ouro, mas cumpriu-se. Viveu.


Pinheiro (Carregal do Sal), 7 de Janeiro de 2016 – 20h55m

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