sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 5] A feira

Hoje, às nove da manhã, tinha os meus tios aqui à porta para me levarem à feira, em Carvalhais. Depois de Pinheiro e chegados a Carregal do Sal, seguimos por uma estrada até Alvarelhos. Continuámos em frente até aparecer um caminho de terra batida, à esquerda, que cruza o bosque de carvalhos e pinheiros mansos, para onde virámos. Fiquei encantado com as árvores e os tons das folhas que cobriam as bermas. Subimos a estrada e, numa clareira, lá estava ela, a feira.
                                                                                       
Vou a feiras desde que me lembro. Confesso que sou um pouco avesso à multidão ruidosa que invade ruas e barracas, prefiro fazer como hoje, ir de manhã, cedo, para escapar à confusão. Lembro-me dos tempos das grandes feiras que, semanalmente, cumpriam o ritual de invadir ruas e descampados, para exibir produtos e gritar pregões, e que depois desapareciam tão rápido que eu me perguntava como conseguiam arrumar tudo em tão pouco tempo. Hoje, embora ainda existam, são mais reduzidas e menos regulares.

A feira é a versão antiga do hipermercado, com mais um ou outro acrescento, já que nos hipermercados não se vende gado nem árvores de fruto, até ver. Claro que na feira não há o conforto que a estrutura do hipermercado proporciona, não há ar condicionado nem carrinhos de compras. Mas entre decidir se pago na caixa automática os produtos embalados que eu mesmo retirei da prateleira ou se pago os produtos frescos e produzidos na agricultura convencional à senhora castiça que gentilmente os embrulhou e os colocou dentro do saco, opto pela segunda opção. Nada contra os hipermercados, também eu me sirvo deles, mas confesso que está mais de acordo com a minha ideia de planeta sustentável o incentivo aos pequenos produtores locais e a humanização das trocas que vamos fazendo. Prefiro pagar os produtos que comprei a uma pessoa, e ainda retribuir-lhe com um sorriso e levar um bom dia comigo, do que ouvir um volte sempre sem emoção dito por um robot.

Quando visito países da Europa do centro, surpreendo-me sempre com os pequenos mercados de produtores locais que encontro nas ruas das grandes cidades, por vezes nas zonas nobres, que me remetem de imediato para a ideia que faço dos mercados da Idade Média. Como seria bom que se mantivesse esse hábito nas cidades portuguesas. Haveria aquele burburinho curioso e movimento, tudo o que uma cidade precisa, é assim desde que a cidade é cidade. Na Europa do centro, nas feiras, vejo os habitantes locais a comprar todo o tipo de produtos aos preços normais de mercado. Não vejo uma versão pop e muito higienizada de feira ou de mercado na cidade, como já vi em Lisboa, em que é tudo arranjadinho, gourmet e brilhante, e em que os preços são inacessíveis à maioria da população, como se houvesse a intenção de seleccionar muito bem o tipo de clientela.

Houvesse mais consciência de quem são os povos, dos caminhos reais que têm percorrido e dos modelos que criam para viver em sociedade, e tudo seria mais simples neste país. E menos bacoco, até. Mas a cidade, habitada por elites e envaidecida, apagou da memória as referências ancestrais e até olha para o que digo com sobranceria. Deslumbrada com o seu próprio reflexo e com as modas que importou, deixa morrer, aos poucos, a raiz que lhe deu origem. Desconhece a resistência dos povos, que prevalecem sempre sobre qualquer domínio.


Pinheiro (Carregal do Sal), 8 de Janeiro de 2016 – 21h14m

1 comentário:

  1. Linda terra de alvarelhos. ..onde nasci...passaste a 20 metros de casa...aproveita

    ResponderEliminar