segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 7] Ariadne

[Aos Domingos, o Diário de Bordo migra para o Blog Bran Morrighan, que me convidou para escrever um texto semanal sobre a experiência da residência artística. Ontem foi publicado o primeiro texto, podem lê-lo aqui. Hoje, deixo este texto.]

Pergunto-me algumas vezes o que vim fazer aqui à aldeia. Vim para escrever um livro, isso é o óbvio, foi com esse projecto que ganhei uma das bolsas do Centro Nacional de Cultura. Mas refiro-me à razão de ter escolhido Pinheiro e não outro lugar qualquer para concorrer à bolsa. O apoio para o projecto tanto seria para um livro escrito aqui na aldeia, como em qualquer outro lugar do mundo. Lembro-me que, no dia em que soube que tinha sido um dos premiados e partilhei com algumas pessoas próximas, me disseram, em tom de brincadeira, que podia ter concorrido para viver um mês numa qualquer capital europeia, mas que em vez disso optara por me recolher numa pequena povoação do interior, onde quase nada acontece. É um facto que, neste preciso momento, se tivesse optado por escrever este livro numa grande cidade, em vez de ver da janela uma floresta e as montanhas ao longe, poderia ver uma grande avenida povoada de gente de todos os cantos da Terra. Mas se assim fosse, se tivesse escolhido o glamour de uma capital em vez da simplicidade da aldeia onde estou, o meu projecto não seria o meu projecto, seria outra coisa qualquer. Daí me questionar sobre a verdadeira razão que me trouxe aqui. Foi para escrever, sim, mas também foi para resgatar a consciência da antiga linhagem a que pertenço.

Depois de uma semana, é comum que as pessoas comecem a interagir comigo e que me façam perguntas, no sentido de perceberem o que me trouxe aqui. Quando lhes digo quem sou, a primeira figura que evocam é a minha avó materna, e só depois o meu avô e a minha mãe. O curioso é que a minha avó não era originária daqui, mas de Alcanhões, no Ribatejo, e apenas viveu cá nos primeiros anos de casamento com o meu avô. Já o meu avô, que nasceu e viveu em Pinheiro, e depois de morrer foi cá sepultado, por vontade expressa ainda em vida, embora referenciado, não é a primeira pessoa de quem a população se lembra quando lhes falo da minha família. A primeira pessoa a ser referenciada é, regularmente, a minha avó. Talvez se explique pelo facto de o meu avô ter trabalhado fora da aldeia, trabalhava numa serração, em Carregal do Sal, e ter sido a minha avó a lidar diariamente com as pessoas daqui. A minha avó era a única costureira em Pinheiro, muitas foram as mulheres que frequentaram a sua casa e muitos os vestidos que lhe encomendaram. Ensinou o ofício da costura a algumas raparigas da aldeia e era tratada com a maior deferência por todos. Ainda hoje, quando me falam dela, noto o respeito e o carinho que lhe tinham.

Desde que aqui estou, tenho ido às terras, às casas e aos lugares ligados à minha família. Visito-os como se procurasse alguma coisa. Talvez esteja realmente à procura de algo e talvez tenha sido essa a razão para ter vindo aqui. Caminho pelas ruas da aldeia para lembrar, para reencontrar os meus avós e todos os meus antepassados, como se por estar nos locais onde eles estiveram eu ficasse um pouco mais próximo, como se conseguisse resgatá-los do mundo dos mortos e os trouxesse à luz, para me contarem todas as histórias que quero ouvir. Ando pelas ruas de Pinheiro como Ariadne no labirinto do Minotauro. Guiam-me as linhas da costura que a minha avó foi tecendo e que deixou pelas ruas, para me lembrar do caminho, e sigo o som dos passos do meu avô, escapando do domínio do monstro que nos persegue desde que somos homens: o esquecimento. 

Pinheiro (Carregal do Sal), 11 de Janeiro de 2016 – 21h00m

1 comentário:

  1. Que a estadia entre a tua Casa e a tua Linhagem se transforme em Verbo maravilhoso, meu amigo. Entretanto, partilho contigo este poema:

    "na noite em que esta infância caberia,

    noite haveria sempre"

    Lêdo Ivo



    na mais antiga noite do mundo,

    silêncio haveria sempre,

    silêncio de palavras,

    como se a rocha ainda não esvaziasse

    o sentido da pele,



    da pele clara e seca da terra,

    da terra simples e boa

    que os antigos cultivavam ao raiar da treva.



    na mais antiga noite do mundo,

    só restaria a pedra e o mar

    encapelado da palavra

    encoberta.

    Jorge Vicente

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