quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 9] Abandono

Decidi aventurar-me de bicicleta e ir até Papízios. A bicicleta é do meu tio, que a arranjou para eu me poder deslocar mais facilmente aqui pela região. É muito engraçada, pois vai todo o caminho a tilintar, dando sinal da minha passagem. Não há cão que não ladre.

Para chegar a Papízios, segue-se pela estrada que sai de Pinheiro, atravessando a floresta de pinheiros e eucaliptos. Sobe-se o caminho, por entre árvores e todo o tipo de chilreios dos pássaros, e chega-se a terra plana. Continua-se em frente até ao cemitério, passam-se os túmulos rupestres à esquerda e vira-se no sentido da igreja, sempre em frente.

Papízios é uma aldeia vizinha de Pinheiro, é maior e com mais população. O centro está velho, abandonado e degradado, mas vêem-se mais pessoas nas ruas. Também é terra de águas e fontes, de agricultura e pastoreio. Num ou noutro canto aparecem solares de pedra, deixados ao cuidado das heras e do musgo.

Quando descia para o centro da aldeia, vi dois homens a conversar junto à estrada. Um, sentado nas escadas, ladeado por dois gatos. Outro, sentado numa cadeira de rodas motorizada. Ambos usavam boinas, que lhes cobriam os cabelos brancos. Assim que ouviram o tilintar da bicicleta, puseram-se a olhar, não estão acostumados a ver estranhos na aldeia. Eu também olhei, não só para eles, mas para o instante que viviam e que eu quis, de imediato, fixar. Assim que os vi, e o edifício que tinham por trás, decidi que ia tirar-lhes uma fotografia.

Parei a bicicleta e encostei-a a uma casa em ruínas. Cumprimentei os dois homens com um boa tarde cordial e perguntei-lhes se podia fotografá-los. Disseram-me que sim, que podia. Tirei a fotografia e logo ouvi o homem que estava sentado nas escadas a perguntar qual era a finalidade de tudo aquilo. Aproximei-me. Disse-lhes que era escritor, que estava a escrever um livro sobre a região. O homem perguntou-me se o livro era sobre o abandono. Olhei melhor para o edifício que acabara de fotografar, com a parede a descascar e ervas a crescer na janela, e compreendi a pergunta. Hesitei, pois não gosto de falar muito sobre os livros antes de estarem escritos, e acabei por responder-lhe que o livro também era sobre o abandono. Não menti, mas também não disse a verdade. Sentei-me junto deles e disse-lhes que estava em Pinheiro, que pertencia à família Figueiredo. Falei-lhes do meu bisavô e reconheceram-no de imediato. Ah, o moleiro, disseram, já morreu há muitos anos. Eu confirmei.

Quando ia para me ir embora, o homem sentado na cadeira de rodas estendeu-me o telemóvel e perguntou-me se eu sabia apagar mensagens escritas. Disse-lhe que sim, que sabia. Peguei no telemóvel, uma versão bem antiga, e após alguns segundos lá encontrei as mensagens. Havia apenas duas mensagens, eram da operadora. Nada mais. Apaguei-as, entreguei-lhe o telemóvel e vi como o homem ficou grato pela ajuda.

Decidi seguir viagem. Despedi-me dos homens, que me desejaram boa sorte, e desencostei a bicicleta da casa em ruínas. Sentei-me e segui estrada abaixo. Quando voltei para cima, os homens já não estavam a conversar junto à estrada, apenas ficaram os gatos. Agora, em casa, pergunto-me onde estão e com quem estão. Parece que ainda os escuto a perguntar-me se o livro que estou a escrever é sobre o abandono da aldeia.


Pinheiro (Carregal do Sal), 13 de Janeiro de 2016 – 19h18m

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