segunda-feira, 30 de maio de 2016

A ágora agora

Texto lido a 28 de Maio de 2016, na Capela de S. Gonçalo, em Válega,
na cerimónia de entrega do IV Prémio Literário Glória de Sant’Anna,
atribuído ao livro “Ágora”.



Imagino-me como um edifício humano. A suster-me, existem colunas. As mais recentes ainda ostentam o talhe imaculado e perfeito do mestre que as esculpiu. As mais antigas estão gastas, de tanto que as visito para me abrigar na sua sombra, de tanto que me encosto à pedra que lhes deu forma, de tanto que lhes toco com as mãos. São essas as primeiras colunas que edifiquei para suportar o edifício que sou. E entre elas, talvez a primeira, a coluna-mestra, está a que ergui para estruturar a minha identidade. Chama-se Grécia.

Lembro-me do fascínio e do sentimento de pertença pela mitologia grega, que atravessou a minha infância. À época, nos anos 90, ainda não tinha consciência que essa sensação de pertença era, efectivamente, real, desconhecia que a Grécia foi a primeira coluna erguida para sustentar a Europa. Logo compreendi a linhagem da civilização como a conhecemos. Lembro-me de descobrir o mito de Hércules nos livros – ou Héracles, para resgatar a raiz grega da Língua –, para não falar do mito da fundação da cidade onde nasci, que cresci a ouvir. Conta-se que Ulisses, ou Odisseu, aportou nas terras do rei celtibero Gorgoris e enamorou-se pela princesa Calipso. Juntos, tiveram um filho, Abidis, que mandou edificar, num planalto à beira-Tejo, a cidade Esca Abidis que significa “manjar de Abidis”. Com o tempo, o nome derivou para Scalabis. Hoje, Santarém. Como não ter fascínio pelos gregos, quando ainda sou herdeiro de Ulisses?

Na escola, o livro Ulisses, de Maria Alberta Menéres, que li com dez ou onze anos, foi o fio que me levou ao encontro da Odisseia e de Homero, de Circe, das Harpias, dos Ciclopes, das Sereias, de Ítaca e Penélope. Depois descobri Helena de Tróia e a Ilíada. Depois Cassandra, Perséfone, Sísifo, Afrodite e Deméter. E depois Péricles, Sócrates, Platão e Hipátia. Atena, Apolo, Pitonisa e Orfeu. Aristóteles, Eurípides, Sófocles, Safo.

Ainda antes de começar a escrever, já estes nomes – ecos de um tempo antigo, e ainda assim tão presente – dialogavam comigo. Era inevitável estar diante do oceano sem me perguntar se Poseídon ou alguma sereia me espreitavam e que ilhas se erguiam para lá do horizonte. Nas linhas com que a minha avó costurava, via os fios tecidos pelas Moiras. Em cada pássaro, as asas de Ícaro. Em cada chama, a dádiva de Prometeu. E em cada touro vigilante da lezíria ribatejana, Zeus disfarçado à procura de Europa. Os mitos diluíram-se tanto na construção da minha identidade, que determinaram a forma como interpreto o real. Logo procurei apreendê-lo, traduzi-lo. Comecei a escrever.

Quem é íntimo dos gregos sabe que os fios servem para não nos perdermos dentro dos labirintos – devorados por bestas e monstros inimagináveis – e que são eles a guiar-nos ao encontro dos nossos aliados. Foi a Grécia que, como o fio de Ariadne, me levou a desvendar mais do labirinto onde eu entrara, dando-me a conhecer a poesia de outra herdeira de Ulisses, Sophia de Mello Breyner Andresen. Com ela aprendi a ver, a ouvir. Falou-me sobre o peso do gesto no acto da inscrição da palavra, no acto de esculpir o poema. E se os mitos, hoje, me são estruturais, foi porque Sophia, como uma sibila, me confirmou que eram reais, dizendo-me para acreditar sempre neles. Pois ainda há verdade nos mitos, eles ainda nos dão sinais para o agora. São os mitos que me ajudam a interpretar este tempo em que nasci, já que não mudámos assim tanto desde a Antiguidade. Uma Europa raptada, não pelo amor de um deus, mas pela ganância dos homens. As novas ágoras edificadas sobre a ilusão. As cidades reféns da perfídia, do horror e da ruína. Os Carontes que medeiam, ou traficam, as transições dos povos. Os gigantes e os monstros, tão sofisticados, tão modernos, e ainda assim tão elementares, tão próximos da sua verdadeira natureza, sempre a oprimir-nos, sempre a devorar-nos, sempre com o desejo de tomar o poder. O mar como centro da experiência humana, lugar de naufrágio e morte e, em simultâneo, símbolo de redenção, de sonho e utopia.

Escrevi Ágora sob a influência desde tempo escuro que nos querem impor, mas nunca sem descurar a fé na utopia que norteia todos os que se relacionam com o mar: o sonho de chegar a uma ilha mítica redentora, à Atlântida, a Avalon ou à Ilha dos Amores cantada por Camões. Pois eu escrevo para falar do mar, o mar é a minha Língua. É ele o fio, a teia que liga todos os falantes de Português. Ele é a génese da Língua. E também o seu futuro.

Foi o mar que me deteve diante da poesia de Glória de Sant’Anna. Quando conheci a sua obra, nesse porto que é Lisboa, percebi que acabara de encontrar a professora, a mestra, que daria continuidade e aprofundaria os ensinamentos que eu recebera de Sophia. A poesia líquida de Glória de Sant’Anna, de quem conhecia o mar português como os homens das Descobertas, também me falou de mitos, da odisseia marítima dos povos, das luzes e das sombras humanas. Aprendi, com ela, a tornar a dor mensurável, mas também a delicadeza. Glória de Sant’Anna falou-me do exercício da depuração do olhar, pois antes de depurar um texto, há que depurar o olhar sobre a realidade. Para ver, efectivamente. E poder dizer a palavra limpa.

Sobre esse exercício de dizer, de que Ágora é resultado, também aprendi com o poeta Delmar Gonçalves e as poetisas Maria Azenha e Maria Dovigo. Foi o mar que mos revelou, à semelhança do que aconteceu com a poesia de Glória de Sant’Anna. Delmar Gonçalves é a rocha vertical a enfrentar a turbulência das ondas, como sempre imagino os poetas. Ele fala do presente e da verdade, sem medo. Maria Azenha é o reflexo nas águas, de onde se desvendam os valores dos homens e os caminhos do futuro. Maria Dovigo é a ilha e o cais. As suas palavras são de redenção e de amor. Ágora dialoga com todos eles. Dialoga, ainda, com Mensagem, de Fernando Pessoa, e procura responder-lhe, num exercício de quem viu, ouviu e ficou para dizer, para lembrar. Acima de tudo para lembrar.

Neste tempo dominado por imagens torpes e miragens, pelo que é fugaz e superficial, pela ignomínia, o medo e a alienação, nunca foi tão urgente lembrar. Lembrar o passado e o presente, mas lembrar ainda mais o futuro, os futuros possíveis. A memória não nos salva da destruição, mas é ela que mantém a nossa humanidade intacta, mesmo se nos esquecerem, mesmo se nos virmos entre destroços. A memória é o chão onde assentam as colunas que edificam o futuro. Pois enquanto houver uma lenda, um mito ou uma história, haverá sempre uma estrela polar a guiar-nos, um eco a dizer-nos, “o futuro é por ali”.

Ágora é um canto à memória. Se a primeira coluna do edifício que sou é grega, o chão onde a ergui é celta. É essa memória ancestral que me liga aos mitos e ao mar. É essa celticidade que me faz olhar para as luzes e as sombras do nosso tempo e perceber como são irreais. Eu não escrevo para falar da sombra nem da luz. Escrevo para falar de um terceiro caminho, o caminho que Perséfone conhece de tanto transitar entre o mundo superior e o mundo inferior. Escrevo para lembrar que a vida não se reduz ao confronto entre polaridades e que a ideia da dualidade nos faz reféns de uma luta que não temos de travar. Como o triskle celta, em que três espirais se entrelaçam num movimento harmonioso, quero lembrar que existe um caminho do meio à espera de ser percorrido, onde cada passo tem suavidade e firmeza, responsabilidade, atenção e liberdade. Cada passo é a confirmação do movimento como verdade. Não somos nem luz nem sombras. Somos o movimento que fazemos entre elas.

Depois de tantos milénios a reivindicar os conceitos duais como definidores da condição humana, iniciando ciclos de dor e ruína, agora, quando parecemos estar num novo processo de conflito entre polaridades, é chegado o tempo de a civilização parar e reflectir. Teremos de perpetuar a dualidade neste mundo, ou já teremos o conhecimento suficiente para percorrer o caminho do meio? Pessoalmente, acredito que o terceiro caminho é o caminho do amor, da compaixão, da fraternidade. Dos três ideais da Revolução Francesa, a fraternidade é aquele ao qual demos menos atenção nos últimos séculos. Reivindicamos liberdade e igualdade e esquecemo-nos que é pela fraternidade que todos os outros ideias se cumprem por inteiro. Sem fraternidade, não há igualdade nem liberdade, ela é a base para edificar e manter o edifício humano. Por essa razão, acredito no amor como o elo necessário ao entendimento entre os povos. É essa a ilha e a utopia que eu desejo. Em Ágora, é esse o cais.

Por acreditar nessa fraternidade como o único futuro possível para a Terra, quero demonstrar a minha gratidão, aqui, entre vós, hoje. Sou grato a todas as vozes e ecos que influenciaram a escrita deste livro, assim como aos meus editores, leitores, amigos e família, cujo apoio é incondicional e vital para eu continuar a escrever e a publicar. Sou grato aos membros do júri por considerarem Ágora merecedor deste prémio, permitindo-me estar, num lugar imaterial, com Eduardo White, Gisela Ramos Rosa e Mário Herrero Valeiro, poetas que admiro e por quem nutro amizade. Por último, sou grato aos promotores deste prémio, não só por insistirem em valorizar quem escreve em Português, mas por manterem viva a memória de uma poetisa que deu mais mundo a esta língua que falo. “E tudo isso será indestrutível”, como um dia ela escreveu.

Termino com um desejo. A Europa é refém há demasiado tempo. Querem transformá-la numa entidade automatizada, descrente e sem herança. Querem fundar uma Europa que não o é. Pois a Europa, como nos ensina o mito, é pura, apaixonada e sonhadora. Ela não resiste ao rapto de Zeus por amor, e com ele tem três filhos. É a Europa emotiva, humanista e mitológica que eu desejo. A Europa que se cumpre através do mar, não fazendo dele caminho para a opressão, como no passado, mas tornando-o numa rota de descoberta, beleza e de encontro com o outro, unindo-se aos povos fraternalmente para, juntos, fundarem a utopia. Por essa razão dedico este prémio à Europa, a minha herança. Devo a minha consciência a este continente, ao que ele representa. E à semelhança de qualquer pessoa ligada a este espaço, também é meu dever guardar o mito, mantendo-o vivo. Como escreveu Glória de Sant’Anna, num poema do livro Não eram aves marinhas, dedicado ao Infante D. Henrique, mas que poderia ter sido escrito para o velho continente, “o que importa porém é seres o mito/ onde se concentrou a acção nos mares”.

Samuel F. Pimenta

1 comentário:

  1. Uma visão abrangente, lúcida e humana da cultura portuguesa, inserida numa Europa à beira da ruptura.

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