quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A fala comum

Visitar a Galiza é um reencontro com a matriz da Língua que falo. “Aqui ganha-se mais língua”, disse-me a escritora Iolanda Aldrei. E logo entendi que se referia à ancestralidade da fala que ambos partilhamos, da cultura que um dia uma fronteira separou e da verdade que ninguém pode negar: é impossível compreender Portugal sem a Galiza, tal como é impossível compreender a Galiza sem Portugal. E todos os falantes de Língua Portuguesa deveriam saber que só com a Galiza poderemos pensar o futuro desta fala que nos é comum.

Antes de vir para cá, já conhecia bem o movimento reintegracionista, que defende que o galego se escreva segundo a grafia histórica, mas pude confirmar como é sério e sustentado desde que aqui cheguei. Não através de documentos, que também os há em abundância, mas na rua. Nas viagens que tenho feito por esta terra antiga, recebi a dádiva de encontrar topónimos que contam a história de como o galego, ou o português, evoluiu, e de escutar as gentes falar. Se nas cidades é notória a herança da segregação e repressão linguística e cultural promovida pela Espanha, havendo, já, quem não fale galego, nas aldeias maravilhei-me ao escutar as fonéticas das gentes mais antigas, tão próximas do jeito de falar de quem vive no Norte de Portugal. Se já tinha consciência de que o galego e o português são a mesma Língua, agora sei ainda melhor como mente e é cúmplice de quem quer eliminar a cultura indígena da Galiza quando insiste em afirmar o contrário. Aqui fala-se a mesma Língua que eu falo. E há muita gente a reivindicá-lo, nos movimentos associativos, na academia, na música, na literatura, na sociedade civil. Em todo o lado, dentro e fora da Galiza.

Nas últimas semanas, depois de muito escutar sobre a origem do galego, houve um livro que me levou a percorrer as ruas de Compostela como se de uma caça ao tesouro se tratasse. Para um bibliófilo como eu, um livro, enquanto objecto, é uma preciosidade, mas este está ao nível do Santo Graal de todos os livros que vou levar daqui, e são muitos. Que mais poderia levar eu para casa?

Durante a minha demanda, estive nas principais livrarias de Compostela, fui a alfarrabistas e até contactei livrarias de outras cidades. “Está esgotado na editora”, diziam-me. E eu repetia para mim mesmo, “não posso voltar a Portugal sem este livro”. E como não poderia mesmo voltar a Portugal sem ele, o destino, ou as moiras que vivem nos subterrâneos deste território, logo conspiraram para que o livro chegasse até mim, pelas mãos de Isabel Rei Samartim, guitarrista galega. Falo do “Ensaio de Gramática do Céltico Antigo Comum”, de Higino Martins, que traz luz a parte da história oculta da Língua Portuguesa. Pois a Língua que falamos é, além de outras coisas, o que resulta do encontro do latim com o céltico. Na Península Ibérica, a Galiza é onde melhor se conserva a memória dessa cultura – falou-se céltico na Galiza até ao século IX -, que tanto influenciou quem hoje somos. Como poderemos seguir em frente sem consciência desse legado cultural e linguístico? Não há futuro sem memória.

Sabemos como os Estados precisam de mitologias próprias que os justifiquem e legitimem, promovendo discursos que vão ao encontro da supremacia dos impérios. Também sabemos que os Estados são os primeiros a censurar o que consideram perigoso à ilusão de unidade que querem incutir nos demais. E todos os Estados o fazem, de forma mais ou menos evidente. Na Galiza, é notória a ferida. E em Portugal, por tantos anos, segue-se dizendo que temos cada vez menos em comum com os galegos, quando na verdade somos os mesmos, herdeiros das mesmas tribos galaicas. Por essa razão as irmandades se mantêm vivas e nutridas entre nós, à margem das lógicas institucionais, cujas motivações escondem, na maioria das vezes, jogos de poder. Os povos nunca precisarão dos Estados para viver. E a Galiza prova-o, pela forma como sempre cooperou com os outros falantes lusófonos.

“A fala da Galiza, o português de Portugal, o português de Brasil, e os português dos distintos territórios lusófonos formam um único diassistema linguístico, conhecido entre nós popularmente como galego e internacionalmente como português”. Estas palavras encontrei-as enquanto caminhava pelas ruas de Compostela. Estão escritas no memorial a um homem cuja estátua está de mão estendida na direcção de quem passa por ali. Escreveu-as Ricardo Carvalho Calero, galego e um dos pais do reintegracionismo. E estão ali, na rua, para quem as quiser ler. Tenho esperança de que muitos se cruzem com essas palavras enquanto caminham por Compostela, que as memorizem e repitam pelo mundo, como quem lança sementes à terra. Os Estados podem ser autoritários, procurando tornar a vida estéril, mas as comunidades, pela sua generosidade natural, provam que a fraternidade é o futuro.

Terra Verde, Ardilheiro, 27 de Outubro de 2016 – 00h33m

Samuel F. Pimenta

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