quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Sereias de Compostela

A Rua da Virgem da Cerca é a que vem da Porta do Caminho para o Mercado de Compostela. Ali, a guardar a passagem, há uma sereia. É uma fonte. A água brota-lhe da boca, como que a lembrar quem por ali passa que é dos mitos que bebemos tudo o que somos. Da primeira vez que a vi, parei o passo de rompante, com um misto de surpresa e medo quando percebi do que se tratava. Não é todos os dias que tropeçamos em sereias à beira da estrada. A alguns centímetros de distância, analisei detalhadamente cada traço do seu perfil esfíngico, temendo importuná-la com a minha curiosidade. O temperamento das sereias é por demais conhecido e eu não queria arriscar ser devorado ou arrastado para o fundo do oceano. Pude contemplá-la tranquilamente. Era, aliás, a única pessoa parada de frente para a fonte, naquela manhã. Não sei se não param ali por medo, se simplesmente porque não vêem.

Caminhar pelas ruas de Compostela leva-me a muitos lugares e muitas vezes passo por ruas que já conheço. É recorrente andar pela Rua da Virgem da Cerca. Sempre que passo ali, paro diante da sereia e fico alguns minutos a olhá-la, com o respeito devido às criaturas que medeiam os caminhos. Talvez por já estar acostumada à minha presença, ou eu a lidar com quem vive do outro lado dos espelhos, há dias em que a escuto a cantar, evocando memórias do fundo do mar e dos barcos. Por vezes, quando caminho com um passo mais hesitante, ela trava-me a passagem e, virando-se para mim, murmura uma charada, dizendo-me que só poderei continuar se acertar na resposta. Não fosse verdadeira a reverência que lhe dedico, haveria dias em que não me permitiria passar, pois ninguém conhece todos os enigmas do mundo e já errei muitas vezes. Mas passo sempre. E sempre que retomo a viagem, ela aturuja e diz-me, qual bênção para o caminho, mas também um aviso, “Denantes mortos que escravos”. Fá-lo, aliás, com toda a gente que cruza a Rua da Virgem da Cerca, como que evocando a memória do povo e da Língua desta terra, para lembrar.

A sereia ainda canta. E por toda a cidade de Compostela há sereias que cantam, homens verdes, serpes, lobas, mouras, petreamente à espera de alguém que os veja. Vão falando das histórias do mundo antigo e dos mundos que estão além e ainda nos dizem, a nós, que por eles passamos, qual é a nossa condição. Pouca é a gente que lembra, pouca é a gente que sabe.

Não sei quantos conseguem escutar a sereia da fonte, quantos a vêem. Nem é isso que importa. Sei que, para muitos, Compostela é uma cidade que “arde, eterna, ao longe”, como escreveu o poeta galego Alexandre Brea Rodríguez, e que esse fogo, essa luz, tem trazido homens e mulheres de todo o mundo a esta terra que verdeja. Mas não sei quantos escutarão as vozes das sereias desta cidade, quantos serão aqueles que desviam os olhos do fogo que arde ao longe para ver o que está mesmo ao lado, nas sombras, no caminho percorrido. As mariposas voam mortalmente na direcção da luz. Não hesitam, não olham em redor. Mas antes do fogo da chegada há sombras que ainda não foram vistas. E o que ocultam pode revelar-se mais brilhante do que o fogo que temos como o fim do caminho.


Santiago de Compostela, 20 de Outubro de 2016 – 12h12m

Samuel F. Pimenta

1 comentário:

  1. Viagem contigo neste magnífico relato. Ouço a sereia da fonte e penso: só um Poeta pode trazer-nos os mistérios de qualquer lugar.
    Um beijo, Samuel.

    ResponderEliminar