sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Neva em Istambul

a roupa dos dervixes também é branca como a desta cidade
e eles rodopiam para se unirem a Deus
Istambul também gira
é dervixe entre dois mares e duas terras
que afinal são apenas água e solo de um único mundo
os muezins cantam Allahu Akbar do alto das mesquitas
e lembram que todos os muçulmanos estão unidos num grande círculo
]em redor de Meca
pelas ruas há quem pare para ouvir
Allahu Akbar, Allahu Akbar
não somos assim tão diferentes
quando formamos um círculo maior que qualquer margem que nos queiram impor
somos gente, é essa a roda sagrada que nos une nesta dança
Deus é grande, Deus é grande
cantam as ruas de Istambul para a Terra
e o canto distancia-se daquele grito a anunciar horror e ruína
por conter a grandeza do amor nas vozes
ainda assim há quem mate nesta cidade das Mil e Uma Noites
quem queira manchar as roupas brancas deste dervixe antigo
cujos braços ainda se abrem para quem busca diluir-se nesta espiral sem tempo
neva em Istambul
dizem que a neve vem para limpar os lugares
como se a Natureza soubesse quando há sangue derramado
também a neve rodopia numa dança
trazendo a memória dos dervixes ancestrais para as ruas
talvez a neve saiba que está mais próxima de Deus
e continue girando à nossa frente
à espera que também giremos como os astros

Istambul, Dezembro de 2016

Samuel F. Pimenta

1 comentário:

  1. Tudo de bom para ti, Samuel. Aqui ou em Istambul fazes sempre poemas magníficos.
    Um ano de 2017 muito abençoado.
    Um beijo, meu Amigo.

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