Tem
estado a chover desde que cheguei a Pinheiro, o que dificulta um pouco as
minhas incursões pela aldeia. Ontem, antes de almoçar, ainda tentei sair de
casa, a chuva nunca foi sinónimo de clausura para mim, mas fui empurrado por
uma forte rajada de vento, mal cheguei ao quintal. O vento não precisa de muito
esforço para me empurrar… Fechei o guarda-chuva e voltei para dentro. Depois de
almoçar, vi pela janela que o vento acalmara e lá me aventurei pelas ruas
vazias de Pinheiro. Estive fora de casa cerca de duas horas. Aproveitei para
tirar fotografias a alguns lugares que visitara na minha infância e para
visitar família. Ainda falei com duas mulheres que vivem perto da primeira casa
onde os meus avós maternos viveram. E voltei para casa, não pudera ir muito
além dos caminhos de alcatrão, que os de terra estavam encharcados e, por isso,
muito instáveis. A chuva manteve-se durante a noite e entretanto as temperaturas
desceram.
Hoje,
quando acordei, ainda era noite fechada. Antes de sair da cama, pus-me a ouvir.
Não chovia. Tomei o pequeno-almoço e abri as janelas, na expectativa de
perceber se ainda havia nuvens. Mal o dia começou a raiar, percebi que sim, que
havia nuvens, mas estavam mais dispersas do que ontem e Domingo, hoje dava para
ver farrapos do azul do céu. Como sei ler os elementos da natureza,
apressei-me, sabia que estavam reunidas as condições para que o dia de hoje
tivesse períodos alternados de sol e de chuva. E de manhã ainda não chovera.
Mudei de roupa, pus um cachecol ao pescoço e uma boina na cabeça, vesti um
casaco quente, arrumei um pequeno guarda-chuva no bolso do casaco, não fosse
chover pelo caminho, e calcei uns sapatos confortáveis para caminhar. Quando
saí de casa, fazia sol.
Cheguei
à estrada principal e tive de semicerrar os olhos, tal era a intensidade da luz
reflectida no asfalto. Caminhava por uma estrada incandescente. Houve uma nuvem
caridosa que deve ter-se compadecido de mim e pôs-se à frente do sol. Antes
assim, desde que não chovesse. Subi a rua, com o bosque a aparecer do meu lado
direito. Olhei para trás e consegui ver, ao longe, a Serra do Caramulo, ainda
não a vira desde que chegara à aldeia. Continuei em frente, sempre a subir, e
virei à direita, para seguir por uma estrada de terra batida, que percorrera
apenas uma vez, quando criança.
Sabia
muito bem qual era o meu objectivo, sabia-o desde que saíra de casa. Temia não
reconhecer os caminhos de há tantos anos, mas decidi aventurar-me e confiar nos
meus sentidos. E os elementos da natureza dão-nos sinais, indicam-nos o
caminho. Quando cheguei a uma bifurcação, decidi afastar-me da estrada que
seguia junto às casas. Entrei no caminho que seguia entre as árvores, para
dentro do bosque.
Penso
que os pássaros se admiraram com a minha presença. Não tanto por ser um humano,
devem estar habituados à presença dos homens, mas mais por não esperarem ver por
ali alguém tão cedo e com aquelas condições climatéricas. Caminhei a ouvi-los
cantarolar, enquanto descia um caminho de terra e pedras, ladeado por
carvalhos, pinheiros e tojos em flor. Entrava para o coração do bosque.
Apercebi-me que, ao longe, grasnava um corvo. Sorri e continuei em frente. Os
corvos são aves que me acompanham, é regular escutá-los, esteja onde estiver. Senti-me
protegido. Foi então que o vi.
Parei
a meio da estrada, olhando por entre os troncos das árvores, até onde a minha
vista conseguia alcançar. Ao longe, impunham-se os contornos do maior tronco do
bosque, que se erguia da terra como a mais firme coluna entre o reino vegetal.
Percebi que a árvore que eu queria rever estava do outro lado, tinha-me
enganado no caminho. Ou melhor, não tinha ido pelo caminho mais rápido e mais
directo, o que é diferente de me ter enganado. Seguira, sim, pelo caminho mais
bonito.
Decidi
não voltar para trás. Se atravessasse o bosque até à outra estrada,
que eu conseguia ver do sítio de onde estava, ficava logo pronto para descer
até à árvore. Saí do caminho e pisei o solo coberto de folhas secas. Procurei
seguir por chão firme, apoiando-me nas raízes, nas pedras e em algumas
elevações de terreno, e saltando sobre os regatos que a chuva formara no
bosque. Rapidamente cheguei à estrada que seguia junto das casas e logo me vi
diante da enorme figura do Eucalipto Grande.
Só
a vira uma vez, penso que antes de eu fazer dez anos, mas bastou esse dia para
que a árvore povoasse o meu imaginário até hoje. Para abraçar o tronco, que
parece ter sido esculpido da terra e alisado, como uma estátua, são precisos
dez homens. Há apenas uma raiz saliente, muito grossa, que se eleva e volta a
perfurar o solo. A parte virada a norte está coberta de musgo e no solo, em
volta, vêem-se cascas do tronco, folhas secas e alguns ramos partidos.
O
Eucalipto Grande é uma árvore anciã, a mais antiga do bosque. É a mais alta das
árvores, repleta de ramificações e, seguramente, de memórias. Os homens de hoje
não saberão contar a sua história. Mas respeitam-na. Sabem que olhar uma árvore
assim é olhar algo do domínio sagrado, como se ela fosse detentora de uma força
oculta e divina. Há, sem dúvida, uma força latente naquele lugar. E uma
sedução. A árvore seduz-nos a parar, a sentarmo-nos junto dela, a abraçar-lhe o
tronco. Mas também há ali um conforto, um sentimento de regresso à matriz, à
origem. É uma árvore-deusa e uma árvore-mãe. Ela continua a resistir de pé e a ramificar,
parece imune ao tempo. Nunca a velhice foi tão forte e tão sedutora. O tempo,
para ela, é condição para viver e não para se aproximar mais da morte. Poder
tocar uma árvore assim é o mesmo que tocar a promessa da imortalidade.
Que
forças ocultas, essas, que elevam as árvores e fazem mirrar os homens?
Pinheiro (Carregal do Sal), 5 de
Janeiro de 2016 – 19h50m