A
aldeia de Pinheiro é muito diferente da minha vila, Alcanhões. A começar pela
geografia. Alcanhões começa onde termina a Lezíria. Os campos são abertos,
povoados por oliveiras e vinhas. Há horizonte e longe. As casas são brancas e
lisas, pintadas de cal. Prevalece a luz. Aqui, na aldeia, os campos estão
fechados pelas copas das árvores da floresta. Pinheiros, na sua maioria. As
casas são feitas de pedra, são escuras e ásperas. A Serra do Caramulo, ao
longe, vigia-nos como sentinela e domina o horizonte. Prevalece a sombra. Das
árvores, das casas, da serra. Mas numa coisa encontraram-se estes dois lugares,
um no Ribatejo, outro na Beira Alta. Encontraram-se nas águas.
Tal
como Alcanhões, Pinheiro é abundante em água. Há fontes, poços, rios, ribeiras
e levadas. Cresci nas proximidades do Tejo e do Alviela, bebendo água das
fontes e dos poços e brincando junto às ribeiras e regatos. Aqui, há o rio Dão
e o Mondego, há as fontes da aldeia e as ribeiras que irrigam os terrenos.
Lembro-me de a minha mãe contar que, quando era pequena e chovia, formavam-se
regatos pelos campos, de onde se podia beber água com as mãos. Hoje, a água
continua a correr. Mas a água que corre não é a mesma de outrora.
Soube
que as águas de Pinheiro têm vindo a ser mutiladas pelas descargas poluentes
das fábricas de produção de mármore e de queijo. Apodrecem os frutos nas
árvores e as plantações dos agricultores, morrem animais envenenados e extinguiram-se
os peixes e as enguias das ribeiras, que ali existiam desde sempre. No Verão, quando
a poluição se faz notar mais, corre um cheiro nauseabundo pelo ar e as águas
podres são propícias à formação de mosquitos. Os homens profanaram as águas de
Pinheiro e lembram-me os mesmos homens que profanam o meu Tejo e o meu Alviela.
Lembram-me os mesmos homens que profanam o Rio Lis e o Zêzere, o Nabão, o
Almonda e o Ave. Esquecem-se, todos eles, que quem profana um elemento da
natureza está a matar-se a si próprio.
A
chuva continua a cair lá fora. Os terrenos estão alagados e a água corre pelas
levadas. Surgem regatos no meio dos campos e as ribeiras transbordam. O Inverno
é a estação da água. Pois que a água limpe a profanação dos homens. E que traga
nova vida à água da aldeia.
Pinheiro (Carregal do Sal), 6 de Janeiro de 2016 –
20h08m