Era
uma vez um moleiro e um moinho. O moinho era uma casa de pedra sem janelas. Fora
erguido no cimo de um penedo, de onde se via o açude e o rio. A água corria
pelas levadas, girando as mós que faziam a farinha. Moía-se milho, centeio e
pimentos. O moleiro descia da aldeia até ao rio, para fazer a moagem, e
servia-se de um burro para carregar os cereais, colina abaixo, colina acima. O
moleiro era o meu bisavô. António, era o seu nome.
O
moinho já não existe. O moleiro também não. Existe o penedo e as marcas que dão
sinal da presença humana no terreno. E há a imaginação, que me faz adivinhar
como seriam os penedos quando ainda havia moinhos de água e moleiros, quando
aquelas eram terras do ofício das mós. De como seria a harmonia do som da água
com o som da pedra contra a pedra. De como seria andar colina abaixo, colina
acima, da aldeia para o moinho e do moinho para a aldeia, uma vida inteira.
Hoje,
diante do mesmo penedo que o meu bisavô via do moinho, percebi que trago comigo
um sentido universal que compreende a transformação das coisas e o lugar que
ocupam. Não sou moleiro, mas sei que o milho, o centeio e o trigo se
transformam em farinha e que a farinha serve para fazer o pão. Sei que a água
que passa pelo açude irriga os terrenos mais à frente, onde se planta o milho, o
centeio e os pimentos que, quando secos, servem para fazer colorau. Sei que as
mós, quando estão gastas, precisam de alguém que as pique. As coisas
transformam-se porque estão vivas. E a transformação obedece aos ritmos selados
pela natureza. Talvez por isso nunca ninguém tenha conseguido transformar pedras
em ouro, não há nisso qualquer alinhamento com a ancestralidade dos pactos.
Afinal,
não sou assim tão diferente do meu bisavô António, que sabia que o moinho era o
seu laboratório de alquimia. Nunca transformou pedras em ouro, mas cumpriu-se. Viveu.
Pinheiro (Carregal do Sal), 7 de Janeiro de 2016 –
20h55m