Hoje,
às nove da manhã, tinha os meus tios aqui à porta para me levarem à feira, em
Carvalhais. Depois de Pinheiro e chegados a Carregal do Sal, seguimos por uma
estrada até Alvarelhos. Continuámos em frente até aparecer um caminho de terra
batida, à esquerda, que cruza o bosque de carvalhos e pinheiros mansos, para
onde virámos. Fiquei encantado com as árvores e os tons das folhas que cobriam
as bermas. Subimos a estrada e, numa clareira, lá estava ela, a feira.
Vou
a feiras desde que me lembro. Confesso que sou um pouco avesso à multidão
ruidosa que invade ruas e barracas, prefiro fazer como hoje, ir de manhã, cedo,
para escapar à confusão. Lembro-me dos tempos das grandes feiras que,
semanalmente, cumpriam o ritual de invadir ruas e descampados, para exibir
produtos e gritar pregões, e que depois desapareciam tão rápido que eu me
perguntava como conseguiam arrumar tudo em tão pouco tempo. Hoje, embora ainda
existam, são mais reduzidas e menos regulares.
A
feira é a versão antiga do hipermercado, com mais um ou outro acrescento, já
que nos hipermercados não se vende gado nem árvores de fruto, até ver. Claro que
na feira não há o conforto que a estrutura do hipermercado proporciona, não há
ar condicionado nem carrinhos de compras. Mas entre decidir se pago na caixa
automática os produtos embalados que eu mesmo retirei da prateleira ou se pago
os produtos frescos e produzidos na agricultura convencional à senhora castiça
que gentilmente os embrulhou e os colocou dentro do saco, opto pela segunda
opção. Nada contra os hipermercados, também eu me sirvo deles, mas confesso que
está mais de acordo com a minha ideia de planeta sustentável o incentivo aos
pequenos produtores locais e a humanização das trocas que vamos fazendo.
Prefiro pagar os produtos que comprei a uma pessoa, e ainda retribuir-lhe com
um sorriso e levar um bom dia comigo, do que ouvir um volte sempre sem emoção
dito por um robot.
Quando
visito países da Europa do centro, surpreendo-me sempre com os pequenos mercados
de produtores locais que encontro nas ruas das grandes cidades, por vezes nas
zonas nobres, que me remetem de imediato para a ideia que faço dos mercados da
Idade Média. Como seria bom que se mantivesse esse hábito nas cidades
portuguesas. Haveria aquele burburinho curioso e movimento, tudo o que uma
cidade precisa, é assim desde que a cidade é cidade. Na Europa do centro, nas
feiras, vejo os habitantes locais a comprar todo o tipo de produtos aos preços
normais de mercado. Não vejo uma versão pop e muito higienizada de feira ou de
mercado na cidade, como já vi em Lisboa, em que é tudo arranjadinho, gourmet e brilhante,
e em que os preços são inacessíveis à maioria da população, como se houvesse a
intenção de seleccionar muito bem o tipo de clientela.
Houvesse
mais consciência de quem são os povos, dos caminhos reais que têm percorrido e
dos modelos que criam para viver em sociedade, e tudo seria mais simples neste
país. E menos bacoco, até. Mas a cidade, habitada por elites e envaidecida, apagou
da memória as referências ancestrais e até olha para o que digo com sobranceria.
Deslumbrada com o seu próprio reflexo e com as modas que importou, deixa
morrer, aos poucos, a raiz que lhe deu origem. Desconhece a resistência dos
povos, que prevalecem sempre sobre qualquer domínio.
Pinheiro (Carregal do Sal), 8 de Janeiro de 2016 –
21h14m