Pinheiro
sempre foi terra de gente que parte, como tem sido Portugal desde que cruzou o
oceano. Viver em trânsito é condição que parece vir da génese do povo que
somos, colocando a nossa identidade cultural muito além das fronteiras que nos
definem. Portugal é mais do que um país. É uma ideia expandida por uma
infinidade de percursos, de viagens.
Ao
caminhar pela aldeia, noto que existem muitas casas à venda, outras fechadas,
outras abandonadas e algumas em ruínas. São poucas as pessoas que aqui vivem e
muitas as que partiram. Brasil, Estados Unidos da América, França, Suíça,
Alemanha, são alguns dos países para onde têm ido as gentes que aqui nasceram.
E o êxodo não é de agora, em que até há bem pouco tempo responsáveis
governamentais nos aconselhavam a emigrar, como se quisessem convencer-nos de
que essa era a única alternativa para as nossas vidas. Já no século XIX havia
gente a ir-se embora, para o Brasil. Possivelmente, até antes. Houve quem
regressasse rico para recomeçar a vida na aldeia, outros por lá ficaram. E já
no século XX, uma nova vaga de emigração levou de Pinheiro, e de Portugal,
gerações e gerações que, no estrangeiro, puderam ter a vida que o país lhes negou.
Hoje, no Verão, ainda vêm visitar família e os lugares da juventude, e ficam
por longas semanas, para regressarem, por fim, aos países que os acolheram.
Pinheiro
é só mais uma aldeia que, pouco a pouco, se vai despedindo de quem aqui nasceu.
São inúmeras as aldeias, as vilas e as cidades que se despedem dos seus filhos,
todos os anos. Esperámos todos que, depois do 25 de Abril, não precisássemos
mais de partir de Portugal, de deixar as nossas casas, os nossos berços, mas
não foi isso que sucedeu. Gerações atrás de gerações continuaram a partir. E
ainda hoje, jovens como eu, depois de terminarem a faculdade, vão em busca de
algo que este país teima em não dar aos que aqui nascem. Há quem diga que é do
mar, que somos aventureiros e que até temos uma missão espiritual a cumprir na
Terra. Poderia contentar-me com essas ideias românticas, uma vez que até acredito
nelas, e resignar-me com esta condição de um povo em errância pelo mundo, mas
continuo a insistir que Portugal, enquanto Estado, trata muito mal os
portugueses desde que envaideceu com o ouro do Brasil, olhando-os como um
rebanho que precisa de um pastor e fazendo-os acreditar nisso. Acontece que o
Estado abandonou o rebanho há muito tempo, propositadamente. Não somos ovelhas,
nunca fomos, mas muitos só o descobrem quando matam a ideia do Estado, quando
deixam de se submeter a ele, quando matam o pastor que se ausentou. Quando
percebem, por fim, que D. Sebastião, em que o Estado se traveste, nunca virá,
pois é disso que se trata, do mito do regresso de D. Sebastião, que durante
tanto tempo nos tem vendado os olhos. A ditadura acabou, mas deixou tentáculos
que ainda vivem. D. Sebastião não é ninguém externo a nós, ele é cada um dos
portugueses e nunca foi embora. Enquanto país, estamos à espera de regressar a
quem somos. E
quanto mais conheço a verdadeira génese do nosso povo, quanto mais conheço as
suas provações e os percursos que tem de percorrer para se redescobrir e
reinventar, reafirmo a minha ideia de que não somos ovelhas num rebanho, volto
a repetir. Somos linces.
Pinheiro (Carregal do Sal), 9 de Janeiro de 2016 –
20h08m