Decidi
aventurar-me de bicicleta e ir até Papízios. A bicicleta é do meu tio, que a
arranjou para eu me poder deslocar mais facilmente aqui pela região. É muito
engraçada, pois vai todo o caminho a tilintar, dando sinal da minha passagem.
Não há cão que não ladre.
Para
chegar a Papízios, segue-se pela estrada que sai de Pinheiro, atravessando a
floresta de pinheiros e eucaliptos. Sobe-se o caminho, por entre árvores e todo
o tipo de chilreios dos pássaros, e chega-se a terra plana. Continua-se em
frente até ao cemitério, passam-se os túmulos rupestres à esquerda e vira-se no
sentido da igreja, sempre em frente.
Papízios
é uma aldeia vizinha de Pinheiro, é maior e com mais população. O centro está
velho, abandonado e degradado, mas vêem-se mais pessoas nas ruas. Também é
terra de águas e fontes, de agricultura e pastoreio. Num ou noutro canto
aparecem solares de pedra, deixados ao cuidado das heras e do musgo.
Quando
descia para o centro da aldeia, vi dois homens a conversar junto à estrada. Um,
sentado nas escadas, ladeado por dois gatos. Outro, sentado numa cadeira de
rodas motorizada. Ambos usavam boinas, que lhes cobriam os cabelos brancos.
Assim que ouviram o tilintar da bicicleta, puseram-se a olhar, não estão
acostumados a ver estranhos na aldeia. Eu também olhei, não só para eles, mas
para o instante que viviam e que eu quis, de imediato, fixar. Assim que os vi,
e o edifício que tinham por trás, decidi que ia tirar-lhes uma fotografia.
Parei
a bicicleta e encostei-a a uma casa em ruínas. Cumprimentei os dois homens com
um boa tarde cordial e perguntei-lhes se podia fotografá-los. Disseram-me que
sim, que podia. Tirei a fotografia e logo ouvi o homem que estava sentado nas
escadas a perguntar qual era a finalidade de tudo aquilo. Aproximei-me.
Disse-lhes que era escritor, que estava a escrever um livro sobre a região. O
homem perguntou-me se o livro era sobre o abandono. Olhei melhor para o edifício
que acabara de fotografar, com a parede a descascar e ervas a crescer na
janela, e compreendi a pergunta. Hesitei, pois não gosto de falar muito sobre
os livros antes de estarem escritos, e acabei por responder-lhe que o livro
também era sobre o abandono. Não menti, mas também não disse a verdade.
Sentei-me junto deles e disse-lhes que estava em Pinheiro, que pertencia à família
Figueiredo. Falei-lhes do meu bisavô e reconheceram-no de imediato. Ah, o
moleiro, disseram, já morreu há muitos anos. Eu confirmei.
Quando
ia para me ir embora, o homem sentado na cadeira de rodas estendeu-me o
telemóvel e perguntou-me se eu sabia apagar mensagens escritas. Disse-lhe que
sim, que sabia. Peguei no telemóvel, uma versão bem antiga, e após alguns
segundos lá encontrei as mensagens. Havia apenas duas mensagens, eram da
operadora. Nada mais. Apaguei-as, entreguei-lhe o telemóvel e vi como o homem
ficou grato pela ajuda.
Decidi
seguir viagem. Despedi-me dos homens, que me desejaram boa sorte, e desencostei
a bicicleta da casa em ruínas. Sentei-me e segui estrada abaixo. Quando voltei
para cima, os homens já não estavam a conversar junto à estrada, apenas ficaram
os gatos. Agora, em casa, pergunto-me onde estão e com quem estão. Parece que ainda
os escuto a perguntar-me se o livro que estou a escrever é sobre o abandono da
aldeia.
Pinheiro (Carregal do Sal), 13 de Janeiro de 2016 –
19h18m