No
concelho de Carregal do Sal, a presença humana remonta aos primórdios da civilização,
de que alguns túmulos dão testemunho. Aqui já viveram muitas civilizações
distintas, deixando marcas que perduram até aos nossos dias. Hoje quero
focar-me, em particular, nos celtas.
A
mitologia celta está fortemente associada à sacralização dos elementos da
natureza, havendo o culto às pedras, às árvores, aos rios. Com a romanização
dos territórios conquistados, e após a promulgação do cristianismo como
religião do império, muitos desses cultos ou perderam-se, ou cristianizaram-se.
Ainda perduram muitos mitos e ritos que, camuflados de populares, remontam à
raiz celta. Estou a lembrar-me das romarias às fontes e aos poços que curam,
das rezas e mezinhas com todo o tipo de ervas, das pedras e das árvores onde
ocorreram aparições. Por aqui, soube da história de um penedo que, muito
certamente, remonta a esse tempo.
Junto
da estrada que liga Pinheiro a Papízios, há um grande penedo, que até passa
despercebido entre as árvores e o musgo. No topo, há blocos de rocha que
parecem ter sido esculpidos, como que para formar bancadas, e em alguns desses
blocos foram abertos pequenos buracos, que se enchem de água quando chove. Para
quem tem imaginação, parece uma cozinha feita na rocha. Dizem os antigos que
era ali que Nossa Senhora amassava e cozia o pão. A história era contada às
crianças, que olhavam para a rocha como um lugar sagrado e motivo de respeito.
Era como se estivessem diante de um templo. Curioso é sabermos que Nossa
Senhora nunca cozeu ali o pão e que o mais provável é o mito ter origem pagã,
como forma de manter viva a ancestralidade do culto à natureza. Ao longo do
tempo, tem vindo a passar de geração em geração pela tradição oral. Suponho eu.
O
penedo ainda existe, mas dizem-me os que cá vivem que está muito diferente do
que era. Há uns anos, partiram algumas partes dos blocos que se assemelhavam às
bancadas da suposta cozinha de Nossa Senhora e o que existe hoje é uma ínfima
amostra do que o penedo já foi. Mas o mito ainda se vai contando, ainda
resiste. Longe estão os tempos em que até as pedras eram sagradas, em que os
mitos eram motivo de religar os homens à natureza. Talvez precisemos de novos
mitos, de novos homens.
Pinheiro (Carregal do Sal), 14 de Janeiro de 2015 –
17h14m