Acordei
às sete da manhã, como habitual. Às oito horas em ponto estava em frente à casa
da minha prima, para irmos caminhar. Combinara ir com ela para conhecer outras
povoações vizinhas aqui da aldeia. Seguimos estrada acima, com o frio a
beliscar-nos a cara, e não fomos sozinhos: a Morena, a cadela mais simpática
que conheço, fez-nos companhia.
A
geada cobria os campos, o sol ainda não passara a linha do horizonte, mas já
era de dia. O frio da manhã gelava-nos as mãos, impelindo-nos a caminhar num
passo firme e regular, para aquecermos. A Morena corria à nossa frente,
antecipando o caminho que havíamos de seguir. Cruzámos bosques, ribeiras e subimos
o suficiente para termos vista limpa para a Serra do Caramulo, com as copas das
árvores abaixo do nosso campo de visão. Quando começámos a descer, chegámos à
Póvoa da Arnosa, e foi na estrada de asfalto que comecei a vê-las, as almas.
As
almas são as pequenas cruzes de pedra que aparecem nos cruzamentos e entroncamentos
dos caminhos. Tenho visto muitas desde que aqui estou, em Pinheiro já vi, pelo
menos, três. São mais um exemplo do culto pagão que se cristianizou. Conta-se
que os caminhos que percorremos no mundo físico reflectem, também, os caminhos
que percorremos no mundo espiritual, e sempre que há um encontro de caminhos,
um cruzamento ou entroncamento, há que sacralizar esse encontro, por norma com
uma cruz (cuja simbologia ancestral, anterior ao cristianismo, nos diz que o
que está em cima é igual ao que está em baixo), para que tudo o que ali for dar
vá por bem. É muito comum ver essa tradição no Norte de Portugal e na Galiza,
onde em vez de cruzes latinas aparecem, regularmente, cruzes celtas, não só no
encontro de caminhos, mas também sobre as portas e janelas; o princípio é o
mesmo, pois a portas e janelas são entradas: a cruz santifica essa passagem,
esse portal, para que apenas passe o que vier bem-intencionado. E ainda se vêem
capelinhas erguidas nos cruzamentos e entroncamentos, marca da cristianização
de um culto que é ainda mais antigo que o cristianismo. E compreende-se que o
culto ainda resista. Conta-se que é nos cruzamentos que vão dar as almas que
não ascenderam aos reinos celestes e que vagueiam pelo mundo, e que também é
onde se encontram bruxas, demónios e lobisomens. Ora, há que sacralizar lugares
tão permeáveis ao encontro de espíritos tão malignos, não vá alguém cair
nalguma maldição inquebrável. E como ainda somos povo de percorrer caminhos, é
também forma de abençoar os passos do caminhante, mantendo-o em caminho seguro
e são. No caminho da luz, diria eu. No caminho do meio.
Pinheiro (Carregal do Sal), 16 de Janeiro de 2016 –
12h41m