[Aos
Domingos, o Diário de Bordo migra para o Blog Bran Morrighan, que me convidou
para escrever um texto semanal sobre a experiência da residência artística. O segundo texto pode ser lido aqui.
Como ontem não escrevi, hoje deixo o texto que se segue.]
Ontem
não escrevi, foi a primeira vez que não escrevi desde que aqui estou. Passei o
dia fora de casa e, quando cheguei, ainda me sentei ao computador para escrever
alguma coisa, mas adormeci em frente ao ecrã. Tenho dormido cerca de seis horas
por dia, tenho explorado muito a aldeia e a região em volta e tenho-me
deslocado a pé ou de bicicleta. Claro que, passado algum tempo, o cansaço
instala-se e o corpo cede.
Escrever
cansa e dá trabalho, são horas de pesquisa e de leitura. Escrever provoca dores
musculares e nos ossos. Tenho dores nas mãos regularmente, em especial nos
dedos, como os pianistas, assim como contracturas nas costas, por passar muitas
horas sentado. Escrever esgota o cérebro e os olhos, pode ser causa de dores de
cabeça, enxaquecas, fotofobia e falta de visão. Escrever faz fome ou tira o
apetite, depende dos textos e das pessoas, e facilita a dependência do álcool e
do tabaco. Escrever satura o corpo. É por essa razão que a literatura, antes de
ser uma arte do intelecto, é uma arte corporal, vem do corpo. Um texto é o
resultado do acto de escrever, é o resultado de um corpo em movimento, que gasta
energia e que se cansa. É, afinal, como toda a arte: precisa de um corpo que
crie, que faça.
Pinheiro (Carregal do Sal), 19 de Janeiro de 2016 –
15h51m