A
chuva voltou à aldeia, forçando-me, novamente, a estar mais recolhido.
Aproveitei para fazer um balanço destes últimos dias, para rever tudo o que já
fiz desde que aqui estou.
Nem
tudo o que tenho descoberto será usado para escrever o romance e há que
ponderar bem quando se trata de decidir. Pinheiro é o cenário onde decorre a
acção do livro. Por essa razão preciso de estar aqui, para conhecer bem os
locais e ter um maior poder de decisão sobre quais os elementos que integrarão
o livro, sobre que ruas, que lugares e que histórias evocar. O facto de esta
ser a aldeia de onde é originária parte da minha família poderia levar-me a
escrever sobre isso, mas não, não pretendo contar essa história, embora admita
que possa vir a usar um ou outro elemento na história que quero contar.
Escrever é como costurar, é como fazer uma manta de retalhos, e isso é ofício
que conheço bem. Herdei-o da minha avó.
Ao
olhar para as fotografias que tenho tirado, as pedras da aldeia, ao mesmo tempo
que se impõem em todas as ruas com a sua fisicalidade, impõem-se também por ocultarem
algo de sobrenatural, como se fossem fantasmas a falar. É ao encontro dessas
vozes que tenho seguido, num confronto entre a dimensão humana e a dimensão da
fantasia e questionando-me sobre a possibilidade de eu povoar a aldeia com personagens
que me levem até à história que mereça ser contada, que me levem ao encontro da
minha própria voz. Sei que estou a caminho, prestes a chegar.
Pinheiro (Carregal do Sal), 21 de Janeiro de 2016 –
19h40m