Ao
anoitecer, fui ao café beber um whisky e depois voltei para casa. Não fui pelo
caminho mais directo, mas sim pelo mais longo, para apreciar a noite. Ia
distraído a olhar para as estrelas, até que a vi, a lua, a preparar-se para a
lua-cheia. Lembrei-me de uma história da aldeia, que os antigos contam num tom
sombrio e de medo. A história dos lobisomens.
Diz-se
que sempre existiram e que viviam misturados com os humanos. Homens com muito
pêlo eram suspeitos. Há quem afirme que, na aldeia, ainda existiam alguns, mas
nunca confirmaram as suas identidades. Desconfiavam deste ou daquele homem,
diziam que os viam de manhã, com pêlo na boca, mas certezas nunca houve.
Na
minha família, corre uma história antiga de quando os meus tios namoravam. A
minha tia estava à janela, do lado de dentro, e o meu tio nas escadas, do lado
de fora, a namorar. Naquele tempo namorava-se assim. Conversavam animadamente,
já passava da meia-noite. Diz-se que ouviram os cães em alvoroço e um som maligno
estrada afora. Imersa nas sombras das casas, apareceu-lhes a figura de um animal
de quatro patas, muito grande. Corria estrada abaixo e parou perto deles. Era
um animal peludo, arrepiante, que nunca saiu da sombra da noite, não dando para
vê-lo ao pormenor. Um gato que passava assanhou-se e o bicho enorme fugiu,
estrada acima. A minha tia, que me contou a história, ainda hoje não sabe o que
realmente viu. Para ela e para o meu tio, não havia dúvida, era um lobisomem. O
certo é que não voltaram a ver o bicho, mas ainda perduram os rumores de que há
homens que viram monstros nas noites de lua-cheia.
Lembrei-me
desta história e corri para casa. A lua-cheia está próxima e… nunca se sabe.
Pinheiro (Carregal do Sal), 23 de Janeiro de 2016 –
19h02m