[Aos
Domingos, o Diário de Bordo migra para o Blog Bran Morrighan, que me convidou
para escrever um texto semanal sobre a experiência da residência artística.
Podem ler o terceiro texto aqui. Hoje deixo o texto que se segue.]
A
minha residência artística em Pinheiro tem acentuado uma ideia antiga que eu já
tinha, motivada, também, por ter crescido no campo: Portugal ainda é um país
rural. Refiro-me à forma como, na generalidade, a nossa sociedade se organiza,
pois embora abundem cidades no nosso território, a dinâmica social assenta em
bases rurais, com tudo o que isso tem de bom e de mau.
As
elites urbanizadas vivem à margem dessa maioria; diria, até, que há um fosso
que divide o vivência rural da vivência urbana, quer pelo discurso, quer pelas
ideias, quer pelas motivações. Quem vive segundo a dinâmica de uma sociedade
rural, olha para as elites urbanizadas como senhores e senhoras que usam
palavras incompreensíveis, distantes da vida prática, como se lhes falassem de uma
realidade muito difícil e inalcançável. Claro que há quem tenha interesse em
perpetuar essa condição e quem, mesmo querendo mudar alguma coisa, acaba por
criar uma distância ainda maior entre o que é rural e o que é urbano, quando se
deveria estar a caminhar para uma confluência cada vez maior, para um encontro.
Claro
que há aqueles que, tendo perfeita consciência do país e do povo que nele
habita, usam essa condição rural em seu proveito. Têm, por norma, tudo o que
querem do povo português. E prosperam, sorridentes, como se fossem reis
regressados. Basta olhar a história.
Pinheiro (Carregal do Sal), 25 de Janeiro de 2016 –
17h47m