Desde
que aqui estou, há caminhos que não me canso de percorrer. Não só pela beleza
natural que encerram, mas por tudo o que me transmitem. Ontem desci novamente a
estrada que leva à ribeira, onde havia o moinho do meu bisavô, e hoje voltei a
um lugar que chamam de Covil das Cobras.
Covil
das Cobras porque, no Verão, diz-se que saem cobras e lagartos das ranhuras
entre as pedras. A primeira vez que lá fui parar foi acidentalmente. Ia sozinho
pelo campo, a caminhar, e de umas barracas junto à estrada saiu um cão grande,
a ladrar. Tentei manter a calma, não parei de caminhar, e instintivamente
afastei-me do caminho do cão, virando, sem saber, na direcção que dá para o Covil
das Cobras. O cão ficou para trás, a ladrar, e eu, ao perceber onde chegara,
maravilhei-me.
Em
cada um dos lados do caminho há um muro feito de pedras. As pedras estão
cobertas por musgo e entre as ranhuras espreitam as raízes das árvores.
Carvalhos, na sua maioria, e alguns pinheiros mansos. Pelo chão, dispõe-se um
tapete de folhas recortadas, cor de cobre. São as folhas dos carvalhos que
ladeiam o caminho. Os ramos são tão altos que formam uma cúpula e ali só se
ouve o vento a sussurrar. É o caminho para as eiras e para o bosque. Para mim,
é a entrada para um reino mágico e imaterial.
Há
quem procure paz dentro dos templos ou no silêncio do quarto. Há quem precise
da imensidão do mar ou da aridez das montanhas. Poder estar entre as árvores,
na floresta ou no bosque, é para mim como entrar num território sagrado, em que
cada árvore, cada pedra e cada animal são obra de uma força antiga e inicial
que nós, humanos, ainda esperamos compreender. Cada coisa está onde cada coisa
deve estar, para que tudo se movimente em perfeição. Há uma ordem, ainda que
não pareça. E há beleza, imensa beleza. Há, em cada recanto, um hino à
prevalência da vida sobre a morte. Uma sinfonia. Uma assinatura.
Pinheiro (Carregal do Sal), 27 de Janeiro de 2016 –
17h36m