Por
trás da capela de Pinheiro, há um pequeno monte que chamam de Soito, por se
encontrarem por lá muitos castanheiros. É um dos meus locais preferidos, aqui.
Grande parte da minha família cultiva lá a terra, há hortas e árvores de fruto.
Nesta altura do ano, as mimosas floridas dominam o monte, formando uma mancha
amarela que se vê de quase todos os lugares da aldeia.
O Soito é, talvez, por onde caminhei mais vezes, quando vinha de visita à aldeia
com os meus pais. Os terrenos estavam molhados, por norma, e a luz era parca,
já que vínhamos à aldeia em Novembro, pelo Dia de Todos os Santos. Na primeira
vez que lá fui, talvez com seis anos, ou até menos, era a minha mãe que me
guiava pelos caminhos de terra, muitas vezes acompanhada pela minha avó e pela
minha tia, que seguiam à frente e me avisavam para ter cuidado com os poços que
se abrem nos terrenos, poços sem muros e que raramente têm uma cerca de canas
como única protecção. A minha mãe levava-me a ver o ribeiro, onde molhava
sempre as mãos, e continuávamos por entre hortas, carvalhos e árvores de fruto.
Pelo caminho, lembrava-se de histórias e contava-me, seguindo pelo caminho ao
lado das levadas. Passávamos por uma mina de água, um buraco escavado na rocha
pelo homem, e a minha mãe dizia-me que se escondia ali, quando era criança.
Depois olhávamos para as casas da aldeia a fumegar e voltávamos para casa.
Às
vezes pergunto-me qual a razão de gostar tanto deste lugar e de o associar, sempre,
às estações do ano em que a luz é breve, de que também gosto particularmente.
Esquecia-me que era precisamente aqui e que era precisamente nessas estações em
que treinava o exercício de olhar, caminhando atrás da minha mãe como que
percorrendo um caminho iniciático para a luz. Para ver. Para ouvir.
Traves-mestras do ofício da poesia.
Pinheiro (Carregal do Sal), 28 de Janeiro de 2016 –
17h37m