Ao
chegar ao café da minha prima, vi-a atarefada junto do forno a lenha. Percebi
logo que estava a cozinhar alguma coisa. Não demorou muito para perceber que
preparava bôlas. Ia fazer bôlas de bacalhau, de carne e de sardinha, com
farinha de milho. Sentei-me para acompanhar todo o processo e logo começámos a
conversar.
Quando
se cozia a broa de milho, anos atrás, aproveitava-se uma parte da massa para
fazer uma bôla. Podia-se fazer mais, dependeria da quantidade de massa e das
pessoas em casa. Recheava-se a massa com o preparado, se fosse de carne ou de
bacalhau, ou com as sardinhas, inteiras. Servia de petisco à refeição, para
comer por cima da sopa, nas casas em que ter petiscos era coisa rara. A criatividade
esteve sempre ao lado daqueles que tinham poucos recursos, que faziam muito com
pouco.
Como
falávamos das comidas que se serviam noutros tempos, nas casas mais pobres,
inclusive na dos meus bisavós, a minha prima lembrou-se das papas. As papas
eram um acompanhamento feito com farinha de milho e a água da cozedura das
nabiças. Depois de cozidas, as nabiças eram postas de parte e adicionava-se
farinha à água, até engrossar. Batia-se tudo com uma colher de pau,
temperava-se e, no final, juntavam-se as nabiças. As papas devem estar muito
próximas das migas alentejanas ou do mangusto, em Santarém. Se antes se faziam
por haver necessidade de se aproveitar tudo o que houvesse para comer, hoje
fazem-se pelo prazer de apreciar um bom prato. Curioso como as refeições dos
pobres de antigamente se tornaram nas refeições dos restaurantes gourmet de
hoje.
Pinheiro (Carregal do Sal), 30 de Janeiro de 2016 –
21h21