[Para finalizar o Diário de Bordo sobre a residência artística em Pinheiro, escrevi este texto para o Blog Bran Morrighan, que me convidou, logo no início, a escrever sobre esta experiência semanalmente. O texto foi publicado no Domingo, dia 31 de Janeiro. Partilho-o aqui.]
Aqui
na aldeia os agricultores e os pastores continuam a acordar cedo para cuidar
dos terrenos e do gado, a água continua a correr pelas ribeiras e levadas e os
gatos continuam a estirar-se preguiçosamente ao sol. A vida avança como sempre avançou.
Como as condições climatéricas têm estado mais favoráveis, decidi organizar-me
de forma a escrever de manhã, passar a tarde na rua e voltar a escrever à
noite. Aproveitei as tardes para rever alguns lugares importantes para o
projecto e para encontrar-me com outros lugares que ainda não conhecia, para
que o meu conhecimento da região seja o mais abrangente possível. Foi também
nesta semana que ouvi mais histórias sobre a aldeia.
As
histórias que tenho ouvido são das mais diversas, mas ilustrativas de como se
vive aqui. Há uma certa mística nos lugares, mas também um grande sentido prático
e de utilidade das coisas. É por isso que há histórias que permanecem desde
tempos remotos, por serem úteis à manutenção da memória e, por isso, da vida.
Uma aldeia como esta, cujos habitantes têm vindo a diminuir de ano para ano, só
consegue manter a autenticidade e persistir pelas histórias que a povoam, pois
são as histórias que estabelecem os elos e são os elos que estabelecem as
comunidades e são as comunidades que permitem nova vida, lembrando a tradição
dos ancestrais. A forma generosa e entusiasta com que me foram dadas as
histórias, algo tão precioso, tão vital, ficar-me-á gravada para sempre na
memória. Dar histórias assim é como um ritual iniciático, é como se também eu
passasse, efectivamente, a fazer parte deste lugar. Eu pertenço, é essa a
sensação.
Foi
a minha última semana na aldeia, agora é tempo de regressar ao Ribatejo e
terminar o projecto com tudo o que levo daqui. E é tanto o que levo daqui! Depois
da minha partida, pouco mudará na aldeia. Os agricultores e os pastores
continuarão a acordar cedo para cuidar dos terrenos e do gado, a água continuará
a correr pelas ribeiras e levadas e os gatos continuarão a estirar-se
preguiçosamente ao sol. É assim desde que Pinheiro é Pinheiro. É assim que deve
continuar a ser.
Pinheiro (Carregal do Sal), 30 de Janeiro de 2016 –
22h12m