A
Páscoa cristã tem raízes na Pessach, a celebração judaica que recorda a
libertação dos hebreus do Egipto. Ambas têm raízes ainda mais profundas, que
remontam aos cultos pagãos à deusa Ostara, realizados no equinócio da Primavera.
As três festividades estão entrelaçadas, pois cumprem um propósito comum:
lembrar aos homens que a vida prevalece sempre sobre a morte. Que a sombra,
seja a que perdura nas longas noites do Inverno, a que pairou sobre a
escravidão dos hebreus no Egipto ou a que levou Jesus à crucificação, perece
sempre diante da luz, dos dias claros da Primavera e das sementes que começam a
eclodir, da promessa da Terra Prometida, da ressurreição e da vida eterna.
Tem
sido essa a narrativa épica da humanidade, somos a vida que prevaleceu diante
dos mortos do passado, somos o resultado da luta entre a luz e a sombra. E se
essa luta tem sido motor para a nossa evolução, e também para o nosso controlo,
milénio atrás de milénio, há-de vir o tempo em que não será mais precisa, em
que saberemos superar a dualidade com que nos iludimos, para compreender que o
mundo não se divide, somente, entre as trevas e a claridade. Quando abandonarmos
a palavra luta do nosso vocabulário, tomaremos consciência de que não é
dividindo que se agrega e que entre todos os opostos há um espelho que os
reflecte. Temos de compreender que o espelho somos nós e que há um terceiro
caminho para percorrer.
Neste
tempo das luzes, nesta Primavera e nesta Páscoa, quando vivemos rodeados de
tanto medo e de tanto ódio, desejo que cada vida possa ser expressão da força
que nos nutre a nós, humanos, e aos animais, às plantas, aos minerais, à Terra,
ao Universo. Que sejamos a vida que prevalece, sabendo, como Perséfone, caminhar
entre a luz e a sombra. Sabendo, como Perséfone, fazer a escolha certa.
“O CAMINHO DO MEIO
Conhecer as trevas e a claridade
como Perséfone
que transita entre mundos
e do confronto da luz e das
sombras
desvendar uma terceira escolha.”
in “Ágora”, Livros de Ontem, 2015
Alcanhões, 26 de Março de 2016 –
18h18m
Samuel F. Pimenta