A Rua da Virgem da Cerca é a que
vem da Porta do Caminho para o Mercado de Compostela. Ali, a guardar a
passagem, há uma sereia. É uma fonte. A água brota-lhe da boca, como que a lembrar
quem por ali passa que é dos mitos que bebemos tudo o que somos. Da primeira
vez que a vi, parei o passo de rompante, com um misto de surpresa e medo quando
percebi do que se tratava. Não é todos os dias que tropeçamos em sereias à
beira da estrada. A alguns centímetros de distância, analisei detalhadamente
cada traço do seu perfil esfíngico, temendo importuná-la com a minha
curiosidade. O temperamento das sereias é por demais conhecido e eu não queria
arriscar ser devorado ou arrastado para o fundo do oceano. Pude contemplá-la
tranquilamente. Era, aliás, a única pessoa parada de frente para a fonte,
naquela manhã. Não sei se não param ali por medo, se simplesmente porque não vêem.
Caminhar pelas ruas de Compostela
leva-me a muitos lugares e muitas vezes passo por ruas que já conheço. É
recorrente andar pela Rua da Virgem da Cerca. Sempre que passo ali, paro diante
da sereia e fico alguns minutos a olhá-la, com o respeito devido às criaturas
que medeiam os caminhos. Talvez por já estar acostumada à minha presença, ou eu
a lidar com quem vive do outro lado dos espelhos, há dias em que a escuto a
cantar, evocando memórias do fundo do mar e dos barcos. Por vezes, quando
caminho com um passo mais hesitante, ela trava-me a passagem e, virando-se para
mim, murmura uma charada, dizendo-me que só poderei continuar se acertar na
resposta. Não fosse verdadeira a reverência que lhe dedico, haveria dias em que
não me permitiria passar, pois ninguém conhece todos os enigmas do mundo e já
errei muitas vezes. Mas passo sempre. E sempre que retomo a viagem, ela aturuja
e diz-me, qual bênção para o caminho, mas também um aviso, “Denantes mortos que
escravos”. Fá-lo, aliás, com toda a gente que cruza a Rua da Virgem da Cerca,
como que evocando a memória do povo e da Língua desta terra, para lembrar.
A sereia ainda canta. E por toda a
cidade de Compostela há sereias que cantam, homens verdes, serpes, lobas,
mouras, petreamente à espera de alguém que os veja. Vão falando das histórias
do mundo antigo e dos mundos que estão além e ainda nos dizem, a nós, que por
eles passamos, qual é a nossa condição. Pouca é a gente que lembra, pouca é a
gente que sabe.
Não sei quantos conseguem escutar a
sereia da fonte, quantos a vêem. Nem é isso que importa. Sei que, para muitos, Compostela é uma cidade
que “arde, eterna, ao longe”, como escreveu o poeta galego Alexandre Brea
Rodríguez, e que esse fogo, essa luz, tem trazido homens e mulheres de todo o
mundo a esta terra que verdeja. Mas não sei quantos escutarão as vozes das
sereias desta cidade, quantos serão aqueles que desviam os olhos do fogo que
arde ao longe para ver o que está mesmo ao lado, nas sombras, no caminho percorrido.
As mariposas voam mortalmente na direcção da luz. Não hesitam, não olham em
redor. Mas antes do fogo da chegada há sombras que ainda não foram vistas. E o
que ocultam pode revelar-se mais brilhante do que o fogo que temos como o fim
do caminho.
Santiago de
Compostela, 20 de Outubro de 2016 – 12h12m
Samuel F. Pimenta