Visitar a Galiza é um reencontro
com a matriz da Língua que falo. “Aqui ganha-se mais língua”, disse-me a
escritora Iolanda Aldrei. E logo entendi que se referia à ancestralidade da
fala que ambos partilhamos, da cultura que um dia uma fronteira separou e da
verdade que ninguém pode negar: é impossível compreender Portugal sem a Galiza,
tal como é impossível compreender a Galiza sem Portugal. E todos os falantes de
Língua Portuguesa deveriam saber que só com a Galiza poderemos pensar o futuro
desta fala que nos é comum.
Antes de vir para cá, já conhecia
bem o movimento reintegracionista, que defende que o galego se escreva segundo
a grafia histórica, mas pude confirmar como é sério e sustentado desde que aqui
cheguei. Não através de documentos, que também os há em abundância, mas na rua.
Nas viagens que tenho feito por esta terra antiga, recebi a dádiva de encontrar
topónimos que contam a história de como o galego, ou o português, evoluiu, e de
escutar as gentes falar. Se nas cidades é notória a herança da segregação e
repressão linguística e cultural promovida pela Espanha, havendo, já, quem não
fale galego, nas aldeias maravilhei-me ao escutar as fonéticas das gentes mais
antigas, tão próximas do jeito de falar de quem vive no Norte de Portugal. Se
já tinha consciência de que o galego e o português são a mesma Língua, agora
sei ainda melhor como mente e é cúmplice de quem quer eliminar a cultura
indígena da Galiza quando insiste em afirmar o contrário. Aqui fala-se a mesma
Língua que eu falo. E há muita gente a reivindicá-lo, nos movimentos
associativos, na academia, na música, na literatura, na sociedade civil. Em
todo o lado, dentro e fora da Galiza.
Nas últimas semanas, depois de
muito escutar sobre a origem do galego, houve um livro que me levou a percorrer
as ruas de Compostela como se de uma caça ao tesouro se tratasse. Para um bibliófilo
como eu, um livro, enquanto objecto, é uma preciosidade, mas este está ao nível
do Santo Graal de todos os livros que vou levar daqui, e são muitos. Que mais
poderia levar eu para casa?
Durante a minha demanda, estive nas
principais livrarias de Compostela, fui a alfarrabistas e até contactei
livrarias de outras cidades. “Está esgotado na editora”, diziam-me. E eu
repetia para mim mesmo, “não posso voltar a Portugal sem este livro”. E como
não poderia mesmo voltar a Portugal sem ele, o destino, ou as moiras que vivem
nos subterrâneos deste território, logo conspiraram para que o livro chegasse
até mim, pelas mãos de Isabel Rei Samartim, guitarrista galega. Falo do “Ensaio
de Gramática do Céltico Antigo Comum”, de Higino Martins, que traz luz a parte
da história oculta da Língua Portuguesa. Pois a Língua que falamos é, além de
outras coisas, o que resulta do encontro do latim com o céltico. Na Península
Ibérica, a Galiza é onde melhor se conserva a memória dessa cultura – falou-se
céltico na Galiza até ao século IX -, que tanto influenciou quem hoje somos.
Como poderemos seguir em frente sem consciência desse legado cultural e
linguístico? Não há futuro sem memória.
Sabemos como os Estados precisam de
mitologias próprias que os justifiquem e legitimem, promovendo discursos que
vão ao encontro da supremacia dos impérios. Também sabemos que os Estados são
os primeiros a censurar o que consideram perigoso à ilusão de unidade que
querem incutir nos demais. E todos os Estados o fazem, de forma mais ou menos
evidente. Na Galiza, é notória a ferida. E em Portugal, por tantos anos,
segue-se dizendo que temos cada vez menos em comum com os galegos, quando na
verdade somos os mesmos, herdeiros das mesmas tribos galaicas. Por essa razão
as irmandades se mantêm vivas e nutridas entre nós, à margem das lógicas
institucionais, cujas motivações escondem, na maioria das vezes, jogos de
poder. Os povos nunca precisarão dos Estados para viver. E a Galiza prova-o,
pela forma como sempre cooperou com os outros falantes lusófonos.
“A fala da Galiza, o português de
Portugal, o português de Brasil, e os português dos distintos territórios
lusófonos formam um único diassistema linguístico, conhecido entre nós
popularmente como galego e internacionalmente como português”. Estas palavras
encontrei-as enquanto caminhava pelas ruas de Compostela. Estão escritas no
memorial a um homem cuja estátua está de mão estendida na direcção de quem
passa por ali. Escreveu-as Ricardo Carvalho Calero, galego e um dos pais do
reintegracionismo. E estão ali, na rua, para quem as quiser ler. Tenho
esperança de que muitos se cruzem com essas palavras enquanto caminham por
Compostela, que as memorizem e repitam pelo mundo, como quem lança sementes à
terra. Os Estados podem ser autoritários, procurando tornar a vida estéril, mas
as comunidades, pela sua generosidade natural, provam que a fraternidade é o
futuro.
Terra Verde,
Ardilheiro, 27 de Outubro de 2016 – 00h33m
Samuel F. Pimenta
Samuel F. Pimenta