segunda-feira, 30 de abril de 2018

Mudanças

Estive mais de 1 ano sem publicar aqui, este espaço morreu.

Agora podem encontrar-me neste endereço: https://samuelfpimenta.com/

Encontramo-nos lá! 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Neva em Istambul

a roupa dos dervixes também é branca como a desta cidade
e eles rodopiam para se unirem a Deus
Istambul também gira
é dervixe entre dois mares e duas terras
que afinal são apenas água e solo de um único mundo
os muezins cantam Allahu Akbar do alto das mesquitas
e lembram que todos os muçulmanos estão unidos num grande círculo
]em redor de Meca
pelas ruas há quem pare para ouvir
Allahu Akbar, Allahu Akbar
não somos assim tão diferentes
quando formamos um círculo maior que qualquer margem que nos queiram impor
somos gente, é essa a roda sagrada que nos une nesta dança
Deus é grande, Deus é grande
cantam as ruas de Istambul para a Terra
e o canto distancia-se daquele grito a anunciar horror e ruína
por conter a grandeza do amor nas vozes
ainda assim há quem mate nesta cidade das Mil e Uma Noites
quem queira manchar as roupas brancas deste dervixe antigo
cujos braços ainda se abrem para quem busca diluir-se nesta espiral sem tempo
neva em Istambul
dizem que a neve vem para limpar os lugares
como se a Natureza soubesse quando há sangue derramado
também a neve rodopia numa dança
trazendo a memória dos dervixes ancestrais para as ruas
talvez a neve saiba que está mais próxima de Deus
e continue girando à nossa frente
à espera que também giremos como os astros

Istambul, Dezembro de 2016

Samuel F. Pimenta

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A fala comum

Visitar a Galiza é um reencontro com a matriz da Língua que falo. “Aqui ganha-se mais língua”, disse-me a escritora Iolanda Aldrei. E logo entendi que se referia à ancestralidade da fala que ambos partilhamos, da cultura que um dia uma fronteira separou e da verdade que ninguém pode negar: é impossível compreender Portugal sem a Galiza, tal como é impossível compreender a Galiza sem Portugal. E todos os falantes de Língua Portuguesa deveriam saber que só com a Galiza poderemos pensar o futuro desta fala que nos é comum.

Antes de vir para cá, já conhecia bem o movimento reintegracionista, que defende que o galego se escreva segundo a grafia histórica, mas pude confirmar como é sério e sustentado desde que aqui cheguei. Não através de documentos, que também os há em abundância, mas na rua. Nas viagens que tenho feito por esta terra antiga, recebi a dádiva de encontrar topónimos que contam a história de como o galego, ou o português, evoluiu, e de escutar as gentes falar. Se nas cidades é notória a herança da segregação e repressão linguística e cultural promovida pela Espanha, havendo, já, quem não fale galego, nas aldeias maravilhei-me ao escutar as fonéticas das gentes mais antigas, tão próximas do jeito de falar de quem vive no Norte de Portugal. Se já tinha consciência de que o galego e o português são a mesma Língua, agora sei ainda melhor como mente e é cúmplice de quem quer eliminar a cultura indígena da Galiza quando insiste em afirmar o contrário. Aqui fala-se a mesma Língua que eu falo. E há muita gente a reivindicá-lo, nos movimentos associativos, na academia, na música, na literatura, na sociedade civil. Em todo o lado, dentro e fora da Galiza.

Nas últimas semanas, depois de muito escutar sobre a origem do galego, houve um livro que me levou a percorrer as ruas de Compostela como se de uma caça ao tesouro se tratasse. Para um bibliófilo como eu, um livro, enquanto objecto, é uma preciosidade, mas este está ao nível do Santo Graal de todos os livros que vou levar daqui, e são muitos. Que mais poderia levar eu para casa?

Durante a minha demanda, estive nas principais livrarias de Compostela, fui a alfarrabistas e até contactei livrarias de outras cidades. “Está esgotado na editora”, diziam-me. E eu repetia para mim mesmo, “não posso voltar a Portugal sem este livro”. E como não poderia mesmo voltar a Portugal sem ele, o destino, ou as moiras que vivem nos subterrâneos deste território, logo conspiraram para que o livro chegasse até mim, pelas mãos de Isabel Rei Samartim, guitarrista galega. Falo do “Ensaio de Gramática do Céltico Antigo Comum”, de Higino Martins, que traz luz a parte da história oculta da Língua Portuguesa. Pois a Língua que falamos é, além de outras coisas, o que resulta do encontro do latim com o céltico. Na Península Ibérica, a Galiza é onde melhor se conserva a memória dessa cultura – falou-se céltico na Galiza até ao século IX -, que tanto influenciou quem hoje somos. Como poderemos seguir em frente sem consciência desse legado cultural e linguístico? Não há futuro sem memória.

Sabemos como os Estados precisam de mitologias próprias que os justifiquem e legitimem, promovendo discursos que vão ao encontro da supremacia dos impérios. Também sabemos que os Estados são os primeiros a censurar o que consideram perigoso à ilusão de unidade que querem incutir nos demais. E todos os Estados o fazem, de forma mais ou menos evidente. Na Galiza, é notória a ferida. E em Portugal, por tantos anos, segue-se dizendo que temos cada vez menos em comum com os galegos, quando na verdade somos os mesmos, herdeiros das mesmas tribos galaicas. Por essa razão as irmandades se mantêm vivas e nutridas entre nós, à margem das lógicas institucionais, cujas motivações escondem, na maioria das vezes, jogos de poder. Os povos nunca precisarão dos Estados para viver. E a Galiza prova-o, pela forma como sempre cooperou com os outros falantes lusófonos.

“A fala da Galiza, o português de Portugal, o português de Brasil, e os português dos distintos territórios lusófonos formam um único diassistema linguístico, conhecido entre nós popularmente como galego e internacionalmente como português”. Estas palavras encontrei-as enquanto caminhava pelas ruas de Compostela. Estão escritas no memorial a um homem cuja estátua está de mão estendida na direcção de quem passa por ali. Escreveu-as Ricardo Carvalho Calero, galego e um dos pais do reintegracionismo. E estão ali, na rua, para quem as quiser ler. Tenho esperança de que muitos se cruzem com essas palavras enquanto caminham por Compostela, que as memorizem e repitam pelo mundo, como quem lança sementes à terra. Os Estados podem ser autoritários, procurando tornar a vida estéril, mas as comunidades, pela sua generosidade natural, provam que a fraternidade é o futuro.

Terra Verde, Ardilheiro, 27 de Outubro de 2016 – 00h33m

Samuel F. Pimenta

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Sereias de Compostela

A Rua da Virgem da Cerca é a que vem da Porta do Caminho para o Mercado de Compostela. Ali, a guardar a passagem, há uma sereia. É uma fonte. A água brota-lhe da boca, como que a lembrar quem por ali passa que é dos mitos que bebemos tudo o que somos. Da primeira vez que a vi, parei o passo de rompante, com um misto de surpresa e medo quando percebi do que se tratava. Não é todos os dias que tropeçamos em sereias à beira da estrada. A alguns centímetros de distância, analisei detalhadamente cada traço do seu perfil esfíngico, temendo importuná-la com a minha curiosidade. O temperamento das sereias é por demais conhecido e eu não queria arriscar ser devorado ou arrastado para o fundo do oceano. Pude contemplá-la tranquilamente. Era, aliás, a única pessoa parada de frente para a fonte, naquela manhã. Não sei se não param ali por medo, se simplesmente porque não vêem.

Caminhar pelas ruas de Compostela leva-me a muitos lugares e muitas vezes passo por ruas que já conheço. É recorrente andar pela Rua da Virgem da Cerca. Sempre que passo ali, paro diante da sereia e fico alguns minutos a olhá-la, com o respeito devido às criaturas que medeiam os caminhos. Talvez por já estar acostumada à minha presença, ou eu a lidar com quem vive do outro lado dos espelhos, há dias em que a escuto a cantar, evocando memórias do fundo do mar e dos barcos. Por vezes, quando caminho com um passo mais hesitante, ela trava-me a passagem e, virando-se para mim, murmura uma charada, dizendo-me que só poderei continuar se acertar na resposta. Não fosse verdadeira a reverência que lhe dedico, haveria dias em que não me permitiria passar, pois ninguém conhece todos os enigmas do mundo e já errei muitas vezes. Mas passo sempre. E sempre que retomo a viagem, ela aturuja e diz-me, qual bênção para o caminho, mas também um aviso, “Denantes mortos que escravos”. Fá-lo, aliás, com toda a gente que cruza a Rua da Virgem da Cerca, como que evocando a memória do povo e da Língua desta terra, para lembrar.

A sereia ainda canta. E por toda a cidade de Compostela há sereias que cantam, homens verdes, serpes, lobas, mouras, petreamente à espera de alguém que os veja. Vão falando das histórias do mundo antigo e dos mundos que estão além e ainda nos dizem, a nós, que por eles passamos, qual é a nossa condição. Pouca é a gente que lembra, pouca é a gente que sabe.

Não sei quantos conseguem escutar a sereia da fonte, quantos a vêem. Nem é isso que importa. Sei que, para muitos, Compostela é uma cidade que “arde, eterna, ao longe”, como escreveu o poeta galego Alexandre Brea Rodríguez, e que esse fogo, essa luz, tem trazido homens e mulheres de todo o mundo a esta terra que verdeja. Mas não sei quantos escutarão as vozes das sereias desta cidade, quantos serão aqueles que desviam os olhos do fogo que arde ao longe para ver o que está mesmo ao lado, nas sombras, no caminho percorrido. As mariposas voam mortalmente na direcção da luz. Não hesitam, não olham em redor. Mas antes do fogo da chegada há sombras que ainda não foram vistas. E o que ocultam pode revelar-se mais brilhante do que o fogo que temos como o fim do caminho.


Santiago de Compostela, 20 de Outubro de 2016 – 12h12m

Samuel F. Pimenta

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Damasco

foram as águas
foi pelas águas que nasceste
para da lama o primeiro homem moldar o primeiro tecto

foram os rios
as vozes líquidas que ecoam
para dar à saliva e à língua os primeiros sons e a fala

foram os peixes
foram os barcos
foram as gentes

foram os limos
foi o lodo
foi o pó que tudo secou

foi o pó, foi o pó

foram as águas
foi pelas águas que se choraram os mortos
restando o sal sobre a terra para deter a podridão


Alcanhões, 29 de Julho de 2016 – 18h56m

Samuel F. Pimenta

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Ser como o pastor que plantava árvores

Jean Giono, francês, escreveu um pequeno conto chamado "O Homem que Plantava Árvores". É sobre um pastor que vive numa terra muito árida, tomada pela escassez e pela seca, e sobre como ele a transforma, ao longo de mais de vinte anos, num lugar fértil, onde voltam a crescer legumes nas hortas e a correr água nas fontes, pelo simples acto de plantar árvores. É uma história de perseverança, esperança e foco. É uma história de amor pela Terra, pela vida. É um convite para que nos tornemos, também nós, pastores que plantam árvores. Pois cada semente boa plantada pelo pastor equivale a cada gesto nosso, cada palavra, cada intenção. Por isso ainda acredito que, continuando a deitar sementes à terra, é possível transformar o deserto. Nele correrão rios e voltarão as gentes para o habitar. E não haverá ninguém que o impeça. Há sementes que ficam anos na terra, escondidas e muito quietas, a aguardar o dia certo para poderem nascer. É continuar a plantar, é continuar a plantar...

Alcanhões, 15 de Julho de 2016 - 12h32m

segunda-feira, 30 de maio de 2016

A ágora agora

Texto lido a 28 de Maio de 2016, na Capela de S. Gonçalo, em Válega,
na cerimónia de entrega do IV Prémio Literário Glória de Sant’Anna,
atribuído ao livro “Ágora”.



Imagino-me como um edifício humano. A suster-me, existem colunas. As mais recentes ainda ostentam o talhe imaculado e perfeito do mestre que as esculpiu. As mais antigas estão gastas, de tanto que as visito para me abrigar na sua sombra, de tanto que me encosto à pedra que lhes deu forma, de tanto que lhes toco com as mãos. São essas as primeiras colunas que edifiquei para suportar o edifício que sou. E entre elas, talvez a primeira, a coluna-mestra, está a que ergui para estruturar a minha identidade. Chama-se Grécia.

Lembro-me do fascínio e do sentimento de pertença pela mitologia grega, que atravessou a minha infância. À época, nos anos 90, ainda não tinha consciência que essa sensação de pertença era, efectivamente, real, desconhecia que a Grécia foi a primeira coluna erguida para sustentar a Europa. Logo compreendi a linhagem da civilização como a conhecemos. Lembro-me de descobrir o mito de Hércules nos livros – ou Héracles, para resgatar a raiz grega da Língua –, para não falar do mito da fundação da cidade onde nasci, que cresci a ouvir. Conta-se que Ulisses, ou Odisseu, aportou nas terras do rei celtibero Gorgoris e enamorou-se pela princesa Calipso. Juntos, tiveram um filho, Abidis, que mandou edificar, num planalto à beira-Tejo, a cidade Esca Abidis que significa “manjar de Abidis”. Com o tempo, o nome derivou para Scalabis. Hoje, Santarém. Como não ter fascínio pelos gregos, quando ainda sou herdeiro de Ulisses?

Na escola, o livro Ulisses, de Maria Alberta Menéres, que li com dez ou onze anos, foi o fio que me levou ao encontro da Odisseia e de Homero, de Circe, das Harpias, dos Ciclopes, das Sereias, de Ítaca e Penélope. Depois descobri Helena de Tróia e a Ilíada. Depois Cassandra, Perséfone, Sísifo, Afrodite e Deméter. E depois Péricles, Sócrates, Platão e Hipátia. Atena, Apolo, Pitonisa e Orfeu. Aristóteles, Eurípides, Sófocles, Safo.

Ainda antes de começar a escrever, já estes nomes – ecos de um tempo antigo, e ainda assim tão presente – dialogavam comigo. Era inevitável estar diante do oceano sem me perguntar se Poseídon ou alguma sereia me espreitavam e que ilhas se erguiam para lá do horizonte. Nas linhas com que a minha avó costurava, via os fios tecidos pelas Moiras. Em cada pássaro, as asas de Ícaro. Em cada chama, a dádiva de Prometeu. E em cada touro vigilante da lezíria ribatejana, Zeus disfarçado à procura de Europa. Os mitos diluíram-se tanto na construção da minha identidade, que determinaram a forma como interpreto o real. Logo procurei apreendê-lo, traduzi-lo. Comecei a escrever.

Quem é íntimo dos gregos sabe que os fios servem para não nos perdermos dentro dos labirintos – devorados por bestas e monstros inimagináveis – e que são eles a guiar-nos ao encontro dos nossos aliados. Foi a Grécia que, como o fio de Ariadne, me levou a desvendar mais do labirinto onde eu entrara, dando-me a conhecer a poesia de outra herdeira de Ulisses, Sophia de Mello Breyner Andresen. Com ela aprendi a ver, a ouvir. Falou-me sobre o peso do gesto no acto da inscrição da palavra, no acto de esculpir o poema. E se os mitos, hoje, me são estruturais, foi porque Sophia, como uma sibila, me confirmou que eram reais, dizendo-me para acreditar sempre neles. Pois ainda há verdade nos mitos, eles ainda nos dão sinais para o agora. São os mitos que me ajudam a interpretar este tempo em que nasci, já que não mudámos assim tanto desde a Antiguidade. Uma Europa raptada, não pelo amor de um deus, mas pela ganância dos homens. As novas ágoras edificadas sobre a ilusão. As cidades reféns da perfídia, do horror e da ruína. Os Carontes que medeiam, ou traficam, as transições dos povos. Os gigantes e os monstros, tão sofisticados, tão modernos, e ainda assim tão elementares, tão próximos da sua verdadeira natureza, sempre a oprimir-nos, sempre a devorar-nos, sempre com o desejo de tomar o poder. O mar como centro da experiência humana, lugar de naufrágio e morte e, em simultâneo, símbolo de redenção, de sonho e utopia.

Escrevi Ágora sob a influência desde tempo escuro que nos querem impor, mas nunca sem descurar a fé na utopia que norteia todos os que se relacionam com o mar: o sonho de chegar a uma ilha mítica redentora, à Atlântida, a Avalon ou à Ilha dos Amores cantada por Camões. Pois eu escrevo para falar do mar, o mar é a minha Língua. É ele o fio, a teia que liga todos os falantes de Português. Ele é a génese da Língua. E também o seu futuro.

Foi o mar que me deteve diante da poesia de Glória de Sant’Anna. Quando conheci a sua obra, nesse porto que é Lisboa, percebi que acabara de encontrar a professora, a mestra, que daria continuidade e aprofundaria os ensinamentos que eu recebera de Sophia. A poesia líquida de Glória de Sant’Anna, de quem conhecia o mar português como os homens das Descobertas, também me falou de mitos, da odisseia marítima dos povos, das luzes e das sombras humanas. Aprendi, com ela, a tornar a dor mensurável, mas também a delicadeza. Glória de Sant’Anna falou-me do exercício da depuração do olhar, pois antes de depurar um texto, há que depurar o olhar sobre a realidade. Para ver, efectivamente. E poder dizer a palavra limpa.

Sobre esse exercício de dizer, de que Ágora é resultado, também aprendi com o poeta Delmar Gonçalves e as poetisas Maria Azenha e Maria Dovigo. Foi o mar que mos revelou, à semelhança do que aconteceu com a poesia de Glória de Sant’Anna. Delmar Gonçalves é a rocha vertical a enfrentar a turbulência das ondas, como sempre imagino os poetas. Ele fala do presente e da verdade, sem medo. Maria Azenha é o reflexo nas águas, de onde se desvendam os valores dos homens e os caminhos do futuro. Maria Dovigo é a ilha e o cais. As suas palavras são de redenção e de amor. Ágora dialoga com todos eles. Dialoga, ainda, com Mensagem, de Fernando Pessoa, e procura responder-lhe, num exercício de quem viu, ouviu e ficou para dizer, para lembrar. Acima de tudo para lembrar.

Neste tempo dominado por imagens torpes e miragens, pelo que é fugaz e superficial, pela ignomínia, o medo e a alienação, nunca foi tão urgente lembrar. Lembrar o passado e o presente, mas lembrar ainda mais o futuro, os futuros possíveis. A memória não nos salva da destruição, mas é ela que mantém a nossa humanidade intacta, mesmo se nos esquecerem, mesmo se nos virmos entre destroços. A memória é o chão onde assentam as colunas que edificam o futuro. Pois enquanto houver uma lenda, um mito ou uma história, haverá sempre uma estrela polar a guiar-nos, um eco a dizer-nos, “o futuro é por ali”.

Ágora é um canto à memória. Se a primeira coluna do edifício que sou é grega, o chão onde a ergui é celta. É essa memória ancestral que me liga aos mitos e ao mar. É essa celticidade que me faz olhar para as luzes e as sombras do nosso tempo e perceber como são irreais. Eu não escrevo para falar da sombra nem da luz. Escrevo para falar de um terceiro caminho, o caminho que Perséfone conhece de tanto transitar entre o mundo superior e o mundo inferior. Escrevo para lembrar que a vida não se reduz ao confronto entre polaridades e que a ideia da dualidade nos faz reféns de uma luta que não temos de travar. Como o triskle celta, em que três espirais se entrelaçam num movimento harmonioso, quero lembrar que existe um caminho do meio à espera de ser percorrido, onde cada passo tem suavidade e firmeza, responsabilidade, atenção e liberdade. Cada passo é a confirmação do movimento como verdade. Não somos nem luz nem sombras. Somos o movimento que fazemos entre elas.

Depois de tantos milénios a reivindicar os conceitos duais como definidores da condição humana, iniciando ciclos de dor e ruína, agora, quando parecemos estar num novo processo de conflito entre polaridades, é chegado o tempo de a civilização parar e reflectir. Teremos de perpetuar a dualidade neste mundo, ou já teremos o conhecimento suficiente para percorrer o caminho do meio? Pessoalmente, acredito que o terceiro caminho é o caminho do amor, da compaixão, da fraternidade. Dos três ideais da Revolução Francesa, a fraternidade é aquele ao qual demos menos atenção nos últimos séculos. Reivindicamos liberdade e igualdade e esquecemo-nos que é pela fraternidade que todos os outros ideias se cumprem por inteiro. Sem fraternidade, não há igualdade nem liberdade, ela é a base para edificar e manter o edifício humano. Por essa razão, acredito no amor como o elo necessário ao entendimento entre os povos. É essa a ilha e a utopia que eu desejo. Em Ágora, é esse o cais.

Por acreditar nessa fraternidade como o único futuro possível para a Terra, quero demonstrar a minha gratidão, aqui, entre vós, hoje. Sou grato a todas as vozes e ecos que influenciaram a escrita deste livro, assim como aos meus editores, leitores, amigos e família, cujo apoio é incondicional e vital para eu continuar a escrever e a publicar. Sou grato aos membros do júri por considerarem Ágora merecedor deste prémio, permitindo-me estar, num lugar imaterial, com Eduardo White, Gisela Ramos Rosa e Mário Herrero Valeiro, poetas que admiro e por quem nutro amizade. Por último, sou grato aos promotores deste prémio, não só por insistirem em valorizar quem escreve em Português, mas por manterem viva a memória de uma poetisa que deu mais mundo a esta língua que falo. “E tudo isso será indestrutível”, como um dia ela escreveu.

Termino com um desejo. A Europa é refém há demasiado tempo. Querem transformá-la numa entidade automatizada, descrente e sem herança. Querem fundar uma Europa que não o é. Pois a Europa, como nos ensina o mito, é pura, apaixonada e sonhadora. Ela não resiste ao rapto de Zeus por amor, e com ele tem três filhos. É a Europa emotiva, humanista e mitológica que eu desejo. A Europa que se cumpre através do mar, não fazendo dele caminho para a opressão, como no passado, mas tornando-o numa rota de descoberta, beleza e de encontro com o outro, unindo-se aos povos fraternalmente para, juntos, fundarem a utopia. Por essa razão dedico este prémio à Europa, a minha herança. Devo a minha consciência a este continente, ao que ele representa. E à semelhança de qualquer pessoa ligada a este espaço, também é meu dever guardar o mito, mantendo-o vivo. Como escreveu Glória de Sant’Anna, num poema do livro Não eram aves marinhas, dedicado ao Infante D. Henrique, mas que poderia ter sido escrito para o velho continente, “o que importa porém é seres o mito/ onde se concentrou a acção nos mares”.

Samuel F. Pimenta

segunda-feira, 25 de abril de 2016

EU SOU LIVRE

Quero a liberdade plena. Não quero a liberdade imposta por uma cultura, por uma sociedade, por um Estado. Não quero que se encha o peito para falar de uma liberdade que oprime, de uma liberdade que não o é. Pois quantas pessoas sobem ao podium, hoje, para discursar sobre opressão e controlo camuflados de liberdade?

Quero ter autodeterminação e poder exercer o meu livre-arbítrio sem olhares e palavras e gestos que censuram, julgam e querem dominar. Quero poder ser quem sou, tal como quero que todas as pessoas também possam ser quem são. Quero a multiplicidade. De identidades, de vontades, de ideias, de géneros, de culturas, de corpos, de criações, de perguntas e respostas. Quero a liberdade plena. Tudo o resto é uma aproximação à liberdade. Fica aquém.

Há uma expressão que me inquieta desde que tenho consciência de mim: “tem de haver mais para além disto, tem de haver mais”. É ela que me tem feito evoluir, expandir o conhecimento sobre o universo que sou. É a minha utopia. E será por ela que resgatarei a liberdade a que tenho direito. Aquela que, dentro do que é possível nesta realidade a três dimensões em que vivo, permite que eu me cumpra. E me liberte.

Alcanhões, 25 de Abril de 2016 – 11h41m


Samuel F. Pimenta

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Lilliput


ao Brasil

Aqueles homens pequeninos que amarraram o gigante
sempre regressam [temerosos] para apertar as cordas.



Alcanhões, 18 de Abril de 2016 – 21h51m

Samuel F. Pimenta

segunda-feira, 11 de abril de 2016

[agora que os dois portos se alinharam]

agora que os dois portos se alinharam
em Lisboa e Atenas há os mesmos barcos

regressando ao mar, voltarão a dizer
cada homem é uma ágora edificada
e é do gesto aplicado a abertura
e é da fala habitada a redenção


Alcanhões, 11 de Abril de 2016 – 15h11

Samuel F. Pimenta

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Da depuração

para me manter limpo
o silêncio
ver sem abrir os olhos

agir

sem que nenhum dedo se levante


Alcanhões, 6 de Abril de 2016 – 18h50m

Samuel F. Pimenta

sábado, 26 de março de 2016

O segredo de Perséfone

A Páscoa cristã tem raízes na Pessach, a celebração judaica que recorda a libertação dos hebreus do Egipto. Ambas têm raízes ainda mais profundas, que remontam aos cultos pagãos à deusa Ostara, realizados no equinócio da Primavera. As três festividades estão entrelaçadas, pois cumprem um propósito comum: lembrar aos homens que a vida prevalece sempre sobre a morte. Que a sombra, seja a que perdura nas longas noites do Inverno, a que pairou sobre a escravidão dos hebreus no Egipto ou a que levou Jesus à crucificação, perece sempre diante da luz, dos dias claros da Primavera e das sementes que começam a eclodir, da promessa da Terra Prometida, da ressurreição e da vida eterna.

Tem sido essa a narrativa épica da humanidade, somos a vida que prevaleceu diante dos mortos do passado, somos o resultado da luta entre a luz e a sombra. E se essa luta tem sido motor para a nossa evolução, e também para o nosso controlo, milénio atrás de milénio, há-de vir o tempo em que não será mais precisa, em que saberemos superar a dualidade com que nos iludimos, para compreender que o mundo não se divide, somente, entre as trevas e a claridade. Quando abandonarmos a palavra luta do nosso vocabulário, tomaremos consciência de que não é dividindo que se agrega e que entre todos os opostos há um espelho que os reflecte. Temos de compreender que o espelho somos nós e que há um terceiro caminho para percorrer.

Neste tempo das luzes, nesta Primavera e nesta Páscoa, quando vivemos rodeados de tanto medo e de tanto ódio, desejo que cada vida possa ser expressão da força que nos nutre a nós, humanos, e aos animais, às plantas, aos minerais, à Terra, ao Universo. Que sejamos a vida que prevalece, sabendo, como Perséfone, caminhar entre a luz e a sombra. Sabendo, como Perséfone, fazer a escolha certa.


“O CAMINHO DO MEIO

Conhecer as trevas e a claridade
        como Perséfone
        que transita entre mundos
e do confronto da luz e das sombras
desvendar uma terceira escolha.”

in “Ágora”, Livros de Ontem, 2015


Alcanhões, 26 de Março de 2016 – 18h18m



Samuel F. Pimenta

domingo, 20 de março de 2016

Matrix

Como nos libertarmos da matrix?

Conhecendo-a, sabendo como funciona e aprendendo a dançar com ela. É como ser um pássaro a voar contra o vento. Há que conhecer muito bem o vento para continuar a voar em frente. Daí o estado meditativo ser tão importante, porque é um estado de contemplação, de atenção plena. Se estou atento ao agora, decido melhor, porque tenho uma maior consciência. É assim que se reúnem as condições para criar uma realidade alternativa. Uma realidade que supere a matrix, a ilusão. Uma realidade que sempre existiu, que é marginal e que persiste desde o princípio da humanidade. Pois os povos sempre tiveram mecanismos de perdurar ante o controlo que tentaram exercer sobre eles. Falo da História que não nos é contada. Falo da narrativa que está além da História dos Estados, que se desenvolveu na clandestinidade, no segredo. Falo de tudo o que foi feito para manter a liberdade que determina a condição humana, um eco da sua voz, um resquício que fosse. Falo de todas as pessoas que, desde o princípio, perceberam que o colectivo que nos incutem não é o colectivo que somos. Somos muito mais do que as miragens que nos mantêm iludidos na matrix. Somos a voz da ruptura, o elo para construir o novo, a liberdade. Somos a matriz que edificarmos, afinal.

Alcanhões, 20 de Março de 2016 - 12h46m


quarta-feira, 16 de março de 2016

A esfinge

à Katerina D. Barbosa,
que, por ser solar como Atena, partiu para o Olimpo

queria que este verso fosse a minha mão
        que pudesse estender-ta
        para ficar mais perto
e que estivesses a ouvir-me dizê-lo
queria recordar os cafés que não bebemos
com a luz do entardecer em Lisboa e Atenas
queria dizer-te as mesmas palavras ternas que me disseste
e ainda pedir-te
fica
para não ter de te ouvir assim, tão calada
como a esfinge que orquestra outro enigma

Alcanhões, 16 de Março de 2016 – 11h22m


terça-feira, 15 de março de 2016

As mãos

Cada letra inscrita por mim, cada palavra que escrevo, é um prolongamento das minhas mãos. E as mãos fazem muita coisa. Podem ferir, são violentas, podem matar. São as mãos que acarinham, são as mãos que dão ou tiram, são as mãos que sabem receber. São as mãos que odeiam e que amam. E sou eu que escolho como se posicionam. Eu quero que sejam paz, quero que sejam cura, quero que sejam festa e amor. Quero que sejam luz. Só assim me aperfeiçoo enquanto humano, só assim me depuro, só assim me torno numa pessoa melhor.

Escrever é essa escolha constante e árdua, essa escolha diária e atenta - que define quem sou e o que faço aqui -, de como devo posicionar as minhas mãos.

Alcanhões, 15 de Março de 2016 - 10h19m

quarta-feira, 2 de março de 2016

Procedimento para despertar da ilusão

Escolhe o lugar mais quieto da casa
senta-te em posição de lótus
e abre a realidade como se fosse um mapa.

Vê as linhas contínuas
que desenham coisas com nomes.
Tudo tem legenda e definição.

Fecha o mapa.
Imagina linhas a tracejado
e nomes por inventar.

Tu não és do tamanho do que vês.
És maior.


Alcanhões, 2 de Março de 2016 – 11h11m

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

[Diário de Bordo] Eu pertenço

[Para finalizar o Diário de Bordo sobre a residência artística em Pinheiro, escrevi este texto para o Blog Bran Morrighan, que me convidou, logo no início, a escrever sobre esta experiência semanalmente. O texto foi publicado no Domingo, dia 31 de Janeiro. Partilho-o aqui.]

Aqui na aldeia os agricultores e os pastores continuam a acordar cedo para cuidar dos terrenos e do gado, a água continua a correr pelas ribeiras e levadas e os gatos continuam a estirar-se preguiçosamente ao sol. A vida avança como sempre avançou. Como as condições climatéricas têm estado mais favoráveis, decidi organizar-me de forma a escrever de manhã, passar a tarde na rua e voltar a escrever à noite. Aproveitei as tardes para rever alguns lugares importantes para o projecto e para encontrar-me com outros lugares que ainda não conhecia, para que o meu conhecimento da região seja o mais abrangente possível. Foi também nesta semana que ouvi mais histórias sobre a aldeia.

As histórias que tenho ouvido são das mais diversas, mas ilustrativas de como se vive aqui. Há uma certa mística nos lugares, mas também um grande sentido prático e de utilidade das coisas. É por isso que há histórias que permanecem desde tempos remotos, por serem úteis à manutenção da memória e, por isso, da vida. Uma aldeia como esta, cujos habitantes têm vindo a diminuir de ano para ano, só consegue manter a autenticidade e persistir pelas histórias que a povoam, pois são as histórias que estabelecem os elos e são os elos que estabelecem as comunidades e são as comunidades que permitem nova vida, lembrando a tradição dos ancestrais. A forma generosa e entusiasta com que me foram dadas as histórias, algo tão precioso, tão vital, ficar-me-á gravada para sempre na memória. Dar histórias assim é como um ritual iniciático, é como se também eu passasse, efectivamente, a fazer parte deste lugar. Eu pertenço, é essa a sensação.

Foi a minha última semana na aldeia, agora é tempo de regressar ao Ribatejo e terminar o projecto com tudo o que levo daqui. E é tanto o que levo daqui! Depois da minha partida, pouco mudará na aldeia. Os agricultores e os pastores continuarão a acordar cedo para cuidar dos terrenos e do gado, a água continuará a correr pelas ribeiras e levadas e os gatos continuarão a estirar-se preguiçosamente ao sol. É assim desde que Pinheiro é Pinheiro. É assim que deve continuar a ser.

Pinheiro (Carregal do Sal), 30 de Janeiro de 2016 – 22h12m

sábado, 30 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 23] As bôlas e as papas

Ao chegar ao café da minha prima, vi-a atarefada junto do forno a lenha. Percebi logo que estava a cozinhar alguma coisa. Não demorou muito para perceber que preparava bôlas. Ia fazer bôlas de bacalhau, de carne e de sardinha, com farinha de milho. Sentei-me para acompanhar todo o processo e logo começámos a conversar.

Quando se cozia a broa de milho, anos atrás, aproveitava-se uma parte da massa para fazer uma bôla. Podia-se fazer mais, dependeria da quantidade de massa e das pessoas em casa. Recheava-se a massa com o preparado, se fosse de carne ou de bacalhau, ou com as sardinhas, inteiras. Servia de petisco à refeição, para comer por cima da sopa, nas casas em que ter petiscos era coisa rara. A criatividade esteve sempre ao lado daqueles que tinham poucos recursos, que faziam muito com pouco.

Como falávamos das comidas que se serviam noutros tempos, nas casas mais pobres, inclusive na dos meus bisavós, a minha prima lembrou-se das papas. As papas eram um acompanhamento feito com farinha de milho e a água da cozedura das nabiças. Depois de cozidas, as nabiças eram postas de parte e adicionava-se farinha à água, até engrossar. Batia-se tudo com uma colher de pau, temperava-se e, no final, juntavam-se as nabiças. As papas devem estar muito próximas das migas alentejanas ou do mangusto, em Santarém. Se antes se faziam por haver necessidade de se aproveitar tudo o que houvesse para comer, hoje fazem-se pelo prazer de apreciar um bom prato. Curioso como as refeições dos pobres de antigamente se tornaram nas refeições dos restaurantes gourmet de hoje.

Pinheiro (Carregal do Sal), 30 de Janeiro de 2016 – 21h21





sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 22] O vergueiro

Estive na eira dos meus tios, a vê-los seleccionar as canas grandes das canas pequenas. Como estou sempre a fazer perguntas, pareço uma criança, perguntei-lhes o que iam fazer com as canas. Disseram-me que as usam na horta, para os feijões poderem trepar, ou nas videiras. Peguei numa cana mais fina e a minha tia contou-me que há quem as use para fazer cestas. Mostrei-me surpreso, não sabia. Foi então que me contou a história de Francisco, o vergueiro de Pinheiro.

Francisco chegou à aldeia vindo do Algarve, a pé, pelos anos 50/60, sensivelmente. No tempo em que vivemos hoje, em que temos mais de um carro por casa, acessibilidade ao metro, ao comboio ou ao avião, é incrível pensar que Portugal já foi um país em que as pessoas tinham de se deslocar a pé por não haver outros meios, em que se vivia com tantas limitações, mas que não eram impedimento de se fazer alguma coisa. Francisco caminhou país acima, sozinho, ora ficando quinze dias num lugar, ora oito dias noutro, até chegar a Pinheiro, onde se fixou. Era o único vergueiro da aldeia, fazia cestas de canas e de vimes, já que ambas as plantas abundam nos terrenos.

Embora tendo ficado por aqui, Francisco não estava sempre por Pinheiro. Ora ia uns dias para uma aldeia, ora para outra. Era um nómada, tinha espírito viajante. Por cá acabou por morrer. Ironia ou não, foi atropelado. Um homem que percorreu mais de metade do país a caminhar acabou por morrer atropelado. Vá-se lá compreender as vontades do destino.


Pinheiro (Carregal do Sal), 29 de Janeiro de 2016 – 20h03m

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

[Diário de Bordo, Texto 21] O Soito

Por trás da capela de Pinheiro, há um pequeno monte que chamam de Soito, por se encontrarem por lá muitos castanheiros. É um dos meus locais preferidos, aqui. Grande parte da minha família cultiva lá a terra, há hortas e árvores de fruto. Nesta altura do ano, as mimosas floridas dominam o monte, formando uma mancha amarela que se vê de quase todos os lugares da aldeia.

O Soito é, talvez, por onde caminhei mais vezes, quando vinha de visita à aldeia com os meus pais. Os terrenos estavam molhados, por norma, e a luz era parca, já que vínhamos à aldeia em Novembro, pelo Dia de Todos os Santos. Na primeira vez que lá fui, talvez com seis anos, ou até menos, era a minha mãe que me guiava pelos caminhos de terra, muitas vezes acompanhada pela minha avó e pela minha tia, que seguiam à frente e me avisavam para ter cuidado com os poços que se abrem nos terrenos, poços sem muros e que raramente têm uma cerca de canas como única protecção. A minha mãe levava-me a ver o ribeiro, onde molhava sempre as mãos, e continuávamos por entre hortas, carvalhos e árvores de fruto. Pelo caminho, lembrava-se de histórias e contava-me, seguindo pelo caminho ao lado das levadas. Passávamos por uma mina de água, um buraco escavado na rocha pelo homem, e a minha mãe dizia-me que se escondia ali, quando era criança. Depois olhávamos para as casas da aldeia a fumegar e voltávamos para casa.

Às vezes pergunto-me qual a razão de gostar tanto deste lugar e de o associar, sempre, às estações do ano em que a luz é breve, de que também gosto particularmente. Esquecia-me que era precisamente aqui e que era precisamente nessas estações em que treinava o exercício de olhar, caminhando atrás da minha mãe como que percorrendo um caminho iniciático para a luz. Para ver. Para ouvir. Traves-mestras do ofício da poesia.

Pinheiro (Carregal do Sal), 28 de Janeiro de 2016 – 17h37m