Texto
lido a 28 de Maio de 2016, na Capela de S. Gonçalo, em Válega,
na
cerimónia de entrega do IV Prémio Literário Glória de Sant’Anna,
atribuído
ao livro “Ágora”.
Imagino-me como um edifício humano. A
suster-me, existem colunas. As mais recentes ainda ostentam o talhe imaculado e
perfeito do mestre que as esculpiu. As mais antigas estão gastas, de tanto que
as visito para me abrigar na sua sombra, de tanto que me encosto à pedra que
lhes deu forma, de tanto que lhes toco com as mãos. São essas as primeiras
colunas que edifiquei para suportar o edifício que sou. E entre elas, talvez a
primeira, a coluna-mestra, está a que ergui para estruturar a minha identidade.
Chama-se Grécia.
Lembro-me do fascínio e do sentimento de
pertença pela mitologia grega, que atravessou a minha infância. À época, nos
anos 90, ainda não tinha consciência que essa sensação de pertença era,
efectivamente, real, desconhecia que a Grécia foi a primeira coluna erguida
para sustentar a Europa. Logo compreendi a linhagem da civilização como a
conhecemos. Lembro-me de descobrir o mito de Hércules nos livros – ou Héracles,
para resgatar a raiz grega da Língua –, para não falar do mito da fundação da
cidade onde nasci, que cresci a ouvir. Conta-se que Ulisses, ou Odisseu,
aportou nas terras do rei celtibero Gorgoris e enamorou-se pela princesa
Calipso. Juntos, tiveram um filho, Abidis, que mandou edificar, num planalto à
beira-Tejo, a cidade Esca Abidis – que significa “manjar de
Abidis”. Com o tempo, o nome derivou para Scalabis. Hoje, Santarém. Como não ter
fascínio pelos gregos, quando ainda sou herdeiro de Ulisses?
Na escola, o livro Ulisses, de Maria
Alberta Menéres, que li com dez ou onze anos, foi o fio que me levou ao
encontro da Odisseia e de Homero, de Circe, das Harpias, dos Ciclopes, das
Sereias, de Ítaca e Penélope. Depois descobri Helena de Tróia e a Ilíada.
Depois Cassandra, Perséfone, Sísifo, Afrodite e Deméter. E depois Péricles,
Sócrates, Platão e Hipátia. Atena, Apolo, Pitonisa e Orfeu. Aristóteles, Eurípides,
Sófocles, Safo.
Ainda antes de começar a escrever, já
estes nomes – ecos de um tempo antigo, e ainda assim tão presente – dialogavam
comigo. Era inevitável estar diante do oceano sem me perguntar se Poseídon ou alguma
sereia me espreitavam e que ilhas se erguiam para lá do horizonte. Nas linhas
com que a minha avó costurava, via os fios tecidos pelas Moiras. Em cada
pássaro, as asas de Ícaro. Em cada chama, a dádiva de Prometeu. E em cada touro
vigilante da lezíria ribatejana, Zeus disfarçado à procura de Europa. Os mitos
diluíram-se tanto na construção da minha identidade, que determinaram a forma
como interpreto o real. Logo procurei apreendê-lo, traduzi-lo. Comecei a
escrever.
Quem é íntimo dos gregos sabe que os
fios servem para não nos perdermos dentro dos labirintos – devorados por bestas
e monstros inimagináveis – e que são eles a guiar-nos ao encontro dos nossos
aliados. Foi a Grécia que, como o fio de Ariadne, me levou a desvendar mais do
labirinto onde eu entrara, dando-me a conhecer a poesia de outra herdeira de
Ulisses, Sophia de Mello Breyner Andresen. Com ela aprendi a ver, a ouvir. Falou-me
sobre o peso do gesto no acto da inscrição da palavra, no acto de esculpir o
poema. E se os mitos, hoje, me são estruturais, foi porque Sophia, como uma
sibila, me confirmou que eram reais, dizendo-me para acreditar sempre neles.
Pois ainda há verdade nos mitos, eles ainda nos dão sinais para o agora. São os
mitos que me ajudam a interpretar este tempo em que nasci, já que não mudámos
assim tanto desde a Antiguidade. Uma Europa raptada, não pelo amor de um deus,
mas pela ganância dos homens. As novas ágoras edificadas sobre a ilusão. As
cidades reféns da perfídia, do horror e da ruína. Os Carontes que medeiam, ou
traficam, as transições dos povos. Os gigantes e os monstros, tão sofisticados,
tão modernos, e ainda assim tão elementares, tão próximos da sua verdadeira
natureza, sempre a oprimir-nos, sempre a devorar-nos, sempre com o desejo de
tomar o poder. O mar como centro da experiência humana, lugar de naufrágio e
morte e, em simultâneo, símbolo de redenção, de sonho e utopia.
Escrevi Ágora sob a influência desde tempo escuro que nos querem impor, mas
nunca sem descurar a fé na utopia que norteia todos os que se relacionam com o
mar: o sonho de chegar a uma ilha mítica redentora, à Atlântida, a Avalon ou à
Ilha dos Amores cantada por Camões. Pois eu escrevo para falar do mar, o mar é
a minha Língua. É ele o fio, a teia que liga todos os falantes de Português.
Ele é a génese da Língua. E também o seu futuro.
Foi o mar que me deteve diante da poesia
de Glória de Sant’Anna. Quando conheci a sua obra, nesse porto que é Lisboa, percebi
que acabara de encontrar a professora, a mestra, que daria continuidade e
aprofundaria os ensinamentos que eu recebera de Sophia. A poesia líquida de
Glória de Sant’Anna, de quem conhecia o mar português como os homens das
Descobertas, também me falou de mitos, da odisseia marítima dos povos, das
luzes e das sombras humanas. Aprendi, com ela, a tornar a dor mensurável, mas
também a delicadeza. Glória de Sant’Anna falou-me do exercício da depuração do
olhar, pois antes de depurar um texto, há que depurar o olhar sobre a realidade.
Para ver, efectivamente. E poder dizer a palavra limpa.
Sobre esse exercício de dizer, de que Ágora é resultado, também aprendi com o
poeta Delmar Gonçalves e as poetisas Maria Azenha e Maria Dovigo. Foi o mar que
mos revelou, à semelhança do que aconteceu com a poesia de Glória de Sant’Anna.
Delmar Gonçalves é a rocha vertical a enfrentar a turbulência das ondas, como
sempre imagino os poetas. Ele fala do presente e da verdade, sem medo. Maria
Azenha é o reflexo nas águas, de onde se desvendam os valores dos homens e os
caminhos do futuro. Maria Dovigo é a ilha e o cais. As suas palavras são de
redenção e de amor. Ágora dialoga com
todos eles. Dialoga, ainda, com Mensagem,
de Fernando Pessoa, e procura responder-lhe, num exercício de quem viu, ouviu e
ficou para dizer, para lembrar. Acima de tudo para lembrar.
Neste tempo dominado por imagens torpes
e miragens, pelo que é fugaz e superficial, pela ignomínia, o medo e a
alienação, nunca foi tão urgente lembrar. Lembrar o passado e o presente, mas
lembrar ainda mais o futuro, os futuros possíveis. A memória não nos salva da
destruição, mas é ela que mantém a nossa humanidade intacta, mesmo se nos
esquecerem, mesmo se nos virmos entre destroços. A memória é o chão onde
assentam as colunas que edificam o futuro. Pois enquanto houver uma lenda, um
mito ou uma história, haverá sempre uma estrela polar a guiar-nos, um eco a
dizer-nos, “o futuro é por ali”.
Ágora
é um canto à memória. Se a primeira coluna do edifício que sou é grega, o chão
onde a ergui é celta. É essa memória ancestral que me liga aos mitos e ao mar.
É essa celticidade que me faz olhar para as luzes e as sombras do nosso tempo e
perceber como são irreais. Eu não escrevo para falar da sombra nem da luz.
Escrevo para falar de um terceiro caminho, o caminho que Perséfone conhece de
tanto transitar entre o mundo superior e o mundo inferior. Escrevo para lembrar
que a vida não se reduz ao confronto entre polaridades e que a ideia da
dualidade nos faz reféns de uma luta que não temos de travar. Como o triskle celta, em que três espirais se entrelaçam
num movimento harmonioso, quero lembrar que existe um caminho do meio à espera
de ser percorrido, onde cada passo tem suavidade e firmeza, responsabilidade,
atenção e liberdade. Cada passo é a confirmação do movimento como verdade. Não
somos nem luz nem sombras. Somos o movimento que fazemos entre elas.
Depois de tantos milénios a reivindicar
os conceitos duais como definidores da condição humana, iniciando ciclos de dor
e ruína, agora, quando parecemos estar num novo processo de conflito entre
polaridades, é chegado o tempo de a civilização parar e reflectir. Teremos de
perpetuar a dualidade neste mundo, ou já teremos o conhecimento suficiente para
percorrer o caminho do meio? Pessoalmente, acredito que o terceiro caminho é o
caminho do amor, da compaixão, da fraternidade. Dos três ideais da Revolução
Francesa, a fraternidade é aquele ao qual demos menos atenção nos últimos
séculos. Reivindicamos liberdade e igualdade e esquecemo-nos que é pela
fraternidade que todos os outros ideias se cumprem por inteiro. Sem
fraternidade, não há igualdade nem liberdade, ela é a base para edificar e
manter o edifício humano. Por essa razão, acredito no amor como o elo
necessário ao entendimento entre os povos. É essa a ilha e a utopia que eu
desejo. Em Ágora, é esse o cais.
Por acreditar nessa fraternidade como o
único futuro possível para a Terra, quero demonstrar a minha gratidão, aqui,
entre vós, hoje. Sou grato a todas as vozes e ecos que influenciaram a escrita
deste livro, assim como aos meus editores, leitores, amigos e família, cujo
apoio é incondicional e vital para eu continuar a escrever e a publicar. Sou
grato aos membros do júri por considerarem Ágora
merecedor deste prémio, permitindo-me estar, num lugar imaterial, com Eduardo
White, Gisela Ramos Rosa e Mário Herrero Valeiro, poetas que admiro e por quem
nutro amizade. Por último, sou grato aos promotores deste prémio, não só por
insistirem em valorizar quem escreve em Português, mas por manterem viva a
memória de uma poetisa que deu mais mundo a esta língua que falo. “E tudo isso
será indestrutível”, como um dia ela escreveu.
Termino com um desejo. A Europa é refém
há demasiado tempo. Querem transformá-la numa entidade automatizada, descrente
e sem herança. Querem fundar uma Europa que não o é. Pois a Europa, como nos
ensina o mito, é pura, apaixonada e sonhadora. Ela não resiste ao rapto de Zeus
por amor, e com ele tem três filhos. É a Europa emotiva, humanista e mitológica
que eu desejo. A Europa que se cumpre através do mar, não fazendo dele caminho
para a opressão, como no passado, mas tornando-o numa rota de descoberta,
beleza e de encontro com o outro, unindo-se aos povos fraternalmente para,
juntos, fundarem a utopia. Por essa razão dedico este prémio à Europa, a minha
herança. Devo a minha consciência a este continente, ao que ele representa. E à
semelhança de qualquer pessoa ligada a este espaço, também é meu dever guardar
o mito, mantendo-o vivo. Como escreveu Glória de Sant’Anna, num poema do livro Não eram aves marinhas, dedicado ao Infante D. Henrique, mas que poderia ter
sido escrito para o velho continente, “o que importa porém é seres o mito/ onde
se concentrou a acção nos mares”.
Samuel F. Pimenta