Quando termino de ler um bom livro, sou tomado por uma saudade nostálgica inquietante. Assim que vejo as páginas do fim próximas, sinto como que uma vontade em demorar-me mais na leitura, em prolongar cada letra e cada sílaba para que as sinta ainda mais intensamente. De um s leio um sssssss. De um amor sinto e leio AAAMMMOOORRR. Demoro-me na leitura dos caracteres a negro impressos nas folhas brancas que toco e cheiro com verdadeiro prazer. Sem pressa.
Terminar de ler um bom livro força-me à despedida de um bom e velho amigo. Durante o tempo de leitura, houve um discurso criado por mim, pelas personagens do livro e pelo escritor. Ler é um encontro que promove um diálogo interno em quem lê. E quando termina esse encontro, chega a saudade, o desassossego do adeus. Quando termino um bom livro, sinto o abismo que obriga ao abraço de despedida de um bom amigo. Abraço-o demoradamente, aperto-o contra o peito. Gosto de sentir um bom amigo até ter a certeza de que é hora de o deixar partir. E chegado ao fim de um livro, fecho-o, pouso-o sobre o colo, e fico suspenso no vácuo, a olhar o vazio que fica quando nos despedimos de alguém que amamos. Fico ali, a senti-lo enquanto fizer sentido para mim. Por fim, entrego-o à guarda da estante. Sei que, ali, está seguro e incondicionalmente disponível.
Felizmente, assim que termino de ler um livro, o vazio que fica com a saudade da despedida é colmatado com a excitação do começar a leitura de um outro livro. Aí, é como se esperássemos aquele amigo que não vemos há muitos anos. Sabemos que já não é o mesmo, que vem diferente. No âmago, paira-nos a dúvida se nos iremos entender como outrora. Mas a alegria e o magnetismo do reencontro superam todas as questões menores que nos deixam duvidosos. Expectante e nervoso, qual criança, começo a ler o novo livro com avidez. Fome de palavras. Passa a euforia. Recupero o fôlego e modero a respiração. Degustar um livro letra a letra. E a leitura segue a bom ritmo. Calmamente, como gosto de viver. E não penso muito na hora do adeus. Quando terminar o meu encontro e chegar o inevitável fim ao diálogo, pensarei na melhor forma de me despedir de um outro bom amigo.
Lisboa, 24 de Agosto de 2012 - 11h40