Quando
me olho no espelho
vejo
o homem de que
sou
feito, o corpo
que
me vestiu.
Vejo
a carne, o grito, o choro.
Sangue,
osso, pele.
Forma
parida, escultura
humana
que respira e
mexe.
Em
mim há
céu
e terra e luz
há
mar e brisa
e
chama e
ferro.
Pedaço de
mundo
que me
rasga
o ser.
Em
mim há o
horror
mundano, o êxtase
idílico
da sublimação.
Volúpia,
encanto, candura, morte.
Em
mim há a dor do
parto
de quem
morre
e
renasce.
Sou
uma torrente de
desejo
sem
fim,
um corpo que
agoniza
pelo que é
mais
alto e
excelso.
Quando
me olho no espelho
vejo
bailados
infindos,
risos
eternos,
vozes que o
mundo
nunca
ouviu.
Sim, vejo
todas
as vozes que
o
mundo nunca
ouviu.
Trazem-me
segredos e
sonhos,
cantos proféticos
do
que é oculto e
distante.
Vejo-lhes
as línguas
os
dentes
as
bocas
os
sexos
os
beijos.
Beijam-me.
Beijo-as.
Em
mim vejo todos os
rostos
que existem e que
estão
por vir, todos os
mundos
possíveis e
inimagináveis.
Universos
que me
brotam
do
peito
e me abraçam.
Abraço-os.
Unimo-nos.
Sou
a fêmea que traz
ao
mundo a vida
e
o grito, o homem
que
urra uma fome
sem
fim.
Avidez
de quem gera amor no ventre,
ser
que nasceu para parir.
Quando
me olho no espelho
vejo
a marca de quem vive
além
do que é possível
viver,
loucura entre os
que
apregoam o
impossível.
Corre-me
nas veias o
sangue
das estrelas
e
forma-me os ossos
o
pó de que é feito
o
início do
tempo.
Quando
me olho no espelho
vejo
tudo o que eu sou.
E
o reflexo que espreita a
memória
de tudo o que
poderia
ter
sido.
Alcanhões, 20 de Janeiro de 2013 – 18h03m