Texto do discurso da Cerimónia de Tomada de Posse dos Membros de Honra,
Académicos Correspondentes e Académicos Estrangeiros do
Núcleo Académico de Letras e Artes de Lisboa
No
fim-de-semana passado, estive num encontro poético na Galiza, “Aturujo à
Terra”, chamava-se. Aturujo é o grito, um urro de alegria, quase xamânico. É a
vida a manifestar-se. Percebi que o aturujo está impregnado no ser dos Galegos,
dotando-os de uma verticalidade inabalável e de uma resistência impossível de
domar. E ao mesmo tempo em que se impõem, altos e distintos como as montanhas,
os galegos trazem no sorriso e no abraço a doçura do cheiro do mar e a beleza
das camélias que cobrem aquelas terras. Falo-vos disto porque tomei consciência
da força daquela gente. Da simplicidade do que têm e do que são, fazem obra
grande e notável. Assumem a tradição e a história que os define e renovam-na
numa Cultura sagrada. Repito, sagrada. E se ousarem castrá-los, eles resistem,
resistem, resistem e resistem outra vez.
Falo-vos
dos nossos irmãos Galegos que a fronteira separou de nós por ver neles o que
sonho para Portugal e, ouso dizer, para a Lusofonia. Que possamos resistir
sempre que nos quiserem domar. Que possamos assumir a nossa identidade enquanto
falantes do Português, uma identidade feita de identidades, pois um falante de
português no Brasil é diferente de um falante de português em Angola, há
hábitos culturais que lhes são distintos, e que caminhemos juntos nesta
multiplicidade de identidades que nos define.
A
Cultura é múltipla e, por isso, é sagrada e essencial. Determina-nos. Se vos
perguntar se têm um lema de vida, certamente citar-me-ão a frase de um livro
que leram. Se vos perguntar se têm um olhar particular sobre o mundo,
certamente esse olhar foi determinado pelas pinturas ou pelos filmes que viram.
A Cultura é a Estrela Polar que nos orienta os passos enquanto civilização, de
uma forma livre e consciente. É a promotora do encontro com o outro e, por
isso, dos afectos e do amor universal. E se mergulharmos novamente em tempos sombrios
como os que já vivemos, neste
tempo em que as ameaças de os vivermos novamente surgem de todas as latitudes e
longitudes, a Cultura é o farol que se impõe, é a luz: sempre altiva, vertical
e indomável.
Conto
com todos vós para que possamos traçar um caminho de seriedade e excelência, um
caminho que promova o encontro, a partilha e a oportunidade de fazer de forma
nova e diferente. Que possamos fazer com que despontem novas auroras e que
tenhamos a vigilância para definirmos o momento de resistir. Saibam que,
comigo, terão sempre alguém que quererá ouvir-vos e aprender. Que todos juntos
possamos fazer do Núcleo Académico de Letras e Artes de Lisboa uma referência
de mérito, vanguarda, activismo e liberdade, em Portugal e em todo o mundo da
Lusofonia. Todos somos essenciais para o equilíbrio desta Terra em que vivemos.
Basta que aprendamos a focarmo-nos naquilo que realmente importa, o que nos
une.
Lisboa, 27 de Março de 2014