Discurso de Abertura da Cerimónia de Entrega
da Comenda Luís Vaz de Camões
no Real Gabinete Português de Leitura da Bahia,
Brasil
Imaginemos
que a Língua Portuguesa não é partilhada por mais de 8 nações, que em Portugal
nunca existiu um Infante que se atreveu a desejar descobrir que povos existiam
para lá do Atlântico que recorta a costa das terras lusas, que Camões nunca
cantou a bravura de uma língua que trouxe novas noções ao Ocidente de como era
o mundo. Imaginemos que o Português se confinou ao rosto da Europa, ao
rectângulo a que chamamos de Portugal, e que ali se manteve todos estes séculos
a olhar, a olhar…
Que
seria o Português sem a pele negra coberta de sal e o desejo da liberdade, sem
o índio e o aroma perfumado das especiarias, sem o horizonte que orienta o
olhar e o querer? Que seria o Português sem a multiplicidade que distingue cada
um dos seus falantes, mas que ao mesmo tempo os aproxima, os torna cúmplices?
Quem
fala português carrega a herança das cantigas sefarditas, das promessas de amor
dos lenços dos namorados, das trovas medievais e do Fado, mas também traz no
peito, na voz, o crioulo, o candomblé, a semba, a Bossa Nova, a capoeira, o mar
que nos une e que nos torna cúmplices, esse mar simbólico que chamamos de
Língua Portuguesa, pois pelo mar ela se expandiu e pelo mar ela ainda respira,
vive e evolui. E nós, que a falamos, somos os novos navegadores, não os que vão
em busca de conquistar o outro, mas os que sabem que é através da Língua e da
cultura que podemos fortalecer os elos que nos aproximam e nos humanizam. Pois
se temos a possibilidade de ter esse lugar em comum chamado Língua Portuguesa,
é para que o usemos como um espaço de encontro, conexão e partilha.
Falar
Português é ser mestiço, é saber que se é herdeiro de uma cultura plural
formada pela diversidade dos povos que a vivem. Que possamos manter a
multiplicidade da Língua Portuguesa, multiplicidade essa que cria um lugar de
comunhão onde nos encontramos para partilhar a individualidade de quem somos.
Que a celebração dos 8 séculos da Língua Portuguesa seja um hino a essa identidade
múltipla que nos define. E que possamos navegar juntos nestes descobrimentos da
nova era, a era em que homens e mulheres reconhecem que são diferentes, mas que
pela vontade se unem em prol de um bem maior: toda a humanidade.
Axé!
Salvador da Bahia, 9 de Agosto de 2014