Texto para a apresentação das obras
“Argila”, de Leonora Rosado,
e “Do Peixe a Pérola”, de Ricardo
Rosado,
na Tertúlia a Nu, no Café 100 Artes
Sombra
e luz são parte do mesmo início. Uma espelha a outra. Não existe luz sem sombra
e a sombra só existe porque a luz a reflecte. Assim é desde o início dos
tempos. Deus definiu trevas e luz através do verbo, da palavra. Separou,
dividiu, nomeou. O princípio através da palavra, da ordem. Foi a ordem inicial
que nos trouxe ao lugar onde estamos hoje.
É
sobre essa ordem inicial que originou a linguagem e a escrita que Leonora
Rosado canta em “Argila”. Impõe-se a imagem do barro e da matéria por moldar,
numa clara evocação ao trabalho do acto poético, à transformação das palavras,
à lapidação dos poemas. “Argila” reacende o fogo primordial da origem das
palavras e do acto de escrever. O poder do verbo. O poema “A nu” remete-nos
para esse lugar do início: “Agarrar o fundo as palavras/ Tocar o seu eco”, mas
também para todas as sombras que a luz original da palavra gerou, os ecos da
linguagem, do som, da vida. Não existe linguagem que não se fragmente, tal como
o bloco de argila de onde o oleiro retira todas as formas possíveis.
“Argila”
é esse jogo de luz e sombra, em que a poeta, como o bambu que balança, viaja
entre os dois mundos para poder ver a verdade. Para poder reafirmar a sua
própria essência dual. “Transpor a sebe/ Até ao esquecimento/ Até ao estilhaçar/
O alienar das almas/ Onde abrir os olhos/ Seja ver.”. Aqui, poema a que chamou
“Ver”, Leonora evoca esse desejo de tocar o momento da ordem que gerou a
linguagem e toda a vida, de ver a verdade das formas, dos sons e do mundo, de
tocar a boca de Deus. Para isso, inscreve a forma e escreve, vira o poema do
avesso, como refere em “Começo”, sabendo que “A poesia é trabalho de costura”.
Há que cortar, cozer, remendar. “Cortar o poema/ Pela raiz/ Rente”, como canta
a poeta. A origem da poesia são as sombras. Para que ela venha à tona, impõe-se
o trabalho do oleiro: moldar, escavar, polir. O corte, a depuração, o gesto que
talha. E a poesia nasce e torna-se a própria luz.
Uma
outra viagem traz-nos Ricardo Rosado, no seu “Do Peixe a Pérola”. A dualidade do
corpo e do sagrado, de um mundo rude e louco que não vê a beleza e o bom. No
poema 1, somos confrontados com esse mundo corpóreo imerso em sombras, mas que
carrega a própria luz no interior, mesmo que não tenha consciência disso. “Veio
dar à costa um peixe/ Que engoliu uma ostra. Salgado./ Meio morto. Mal sabia…/
Carregava uma pérola.”. O poema 1 evoca essa imagem dos homens que habitam a
caverna de Platão. O véu que os afasta da luz é demasiado opaco. O poeta, que
conhece a luz, que a habitou, canta para que os outros também a vejam. Escolhe
mergulhar nas sombras do mundo para lhes trazer a luz que o habita, a luz que
viu. O desassossego que o impele ao acto de escrever, por vezes cru, por vezes
mordaz, por vezes brusco, é o mesmo desassossego que o alimenta nessa luta por
dizer a verdade ao mundo e por buscar a redenção. Carregar o facho de Prometeu
num mundo de cegos é tarefa ingrata. “Hei-de voltar a ser mudo/ «reaprender»/ O
sabor ao som/ «a língua»/ Morder, cuspir o veneno”, como diz no poema 36. A desilusão
de olhar um real desabitado de gente e a vontade de esquecer, de cuspir o que o
impele a cantar a verdade. Ainda assim, Ricardo Rosado escreve para manter
acesas as chamas e para que, no final, encontre a redenção, para que volte à
luz que conhece e que traz dentro de si, mas que o mundo mecânico, visceral e
torpe, que denuncia no magnífico poema 46, lhe suga. E a única forma de manter
viva essa luz dentro de si, a única forma de manter viva a esperança, é a
escrita e o amor:
"Das cores do dia
«as que restarem»
Olhar desatento, sardas...
Podemos juntar-lhe as formas:
Como se juntam ramos; às folhas secas.
Podemos sorrir, de soslaio
«jogar um jogo»
Inventar-te. E a tudo o resto..."
Lisboa, 8 de Novembro de 2014